Invasão Zumbi (Busanhaeng), de 2016, dirigido por Sang-ho Yeon

Ao ler esse título, você deve estar falando consigo mesmo “esse maluco só pode estar de zoação com a minha cara. Primeiro, indica mais um filme de bullying. Agora, me vem com mais um filme de zumbi. Vai à ‘legítima merda’!” (como gosta de nos mandar um super-fã do site aí). Duplo erro na sua sentença. Nem aquele é só mais um filme sobre bullying, muito menos este é só mais um sobre zumbi. Sei, no entanto, que a temática parece estar esgotada. Já tentaram de tudo: desde o belíssimo “Extermínio” de Danny Boyle, no qual acompanhamos a jornada de sobrevivência no microcosmos (a partir da experiência de três personagens que se unem), passando pelo interessante “Guerra Mundial Z” de Marc Forster, quando o foco são os superpoderes do mundo tentando solucionar o problema geral da epidemia zumbi (a sobrevivência no macrocosmos), chegando até o curioso “Meu Namorado é um Zumbi” de Jonathan Levine, no estilo comédia romântica, envolvendo esse universo para narrar um conto açucarado de amor. É evidente – é muito evidente – que há um bilhão de outros títulos, mas eu fui nos primeiros que me vieram à cabeça e cujas estruturas são bem diferenciadas entre si. Sequer abordei os clássicos; sim, eu sei.

Se você realmente acha que nada mais poderia ser feito a partir da alegoria de um zumbi, então saiba que sempre dá e que, mais do que tudo, um sul-coreano é bem capaz de qualquer coisa. Nesses termos, Invasão Zumbi, dirigido por Sang-ho Yeon, se utiliza dessa “mitologia” para tratar das relações sociais. Enquanto um vírus zumbi parece se iniciar em Seul, em fuga desesperada centenas de pessoas pegam o trem para Busan (justificando o nome em inglês Train to Busan, em tradução “Trem para Busan”). O filme, então, a partir daí, fica dentro da locomotiva, passando por alguns vagões, enquanto a epidemia começa a se fazer presente também ali. Os não infectados farão o impossível para sobreviver, apenas no espaço limitado daquele grande veículo. Dentre os dramas de cada um está Seok-woo (Yoo Gong) tentando, acima de tudo, garantir a proteção de sua pequena filha Soon-an (Su-an Kim).

“Metropolis tomou todos os sonhos das criaturas certa vez feitas à imagem e semelhança de Deus” (Mille Petrozza)

A alegoria da criatura errante, porém sem vida, é utilizada por Sang-ho Yeon para representar a ameaça constante que pode fazer uma civilização entrar em colapso. Nessa busca desesperada pela sobrevivência própria, as relações pessoais começam a se deteriorar, à medida em que a união vai se desfazendo para que um indivíduo consiga permanecer. Aqueles que encontram um espaço seguro se apropriam dele, impedindo que os demais tenham acesso. Assim, asseguram a integridade daquele refúgio. Duas Coréias segregadas por vagões, enquanto lutam contra a epidemia zumbi, balançando no fio da navalha pela manutenção da vida. Duas Coréias separadas por uma divisão arbitrária, enquanto especulam ataques nucleares, balançando no fio da navalha pela manutenção da “paz”.

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