Fronteira (Frontera), de 2014, dirigido por Michael Berry

Não me lembro de ter visto, em anos recentes, tantos filmes sobre imigrantes e em como sofrem para se adaptar ao novo local de morada quanto atualmente. Parece-me que o momento extremista ao qual estamos acostumados está gerando, na Arte, um movimento no sentido oposto; como se ela tentasse nos fazer entender o outro, quase como um exercício de empatia. Quando falamos sobre o ser humano – e é ele o objeto das Artes – tudo é tão mais complexo do que uma definição preto no branco ou um “sim” ou “não”.

Fronteira nos conta a conhecida história de imigrantes mexicanos atravessando, de maneira ilegal, a inóspita fronteira que separa um país desenvolvido de outro menos; a busca pelo sonho americano por parte daqueles que tem poucas chances em sua terra natal. Na pele de Miguel (naquilo que Michael Peña sabe fazer de melhor, devido ao seu physique du rôle marcante para interpretar um chicano sofredor – e isso não é uma crítica, muito pelo contrário), acompanhamos sua trajetória ao lado de Jose (muito bem atuado por Michael Ray Escamilla), que não compartilha da mesma ética e bondade daquele. A travessia se torna ainda mais problemática quando os dois latino-americanos são alvo de três moleques americanos (daqueles “tudo pela América”, tal qual o presidente que este povo elegeu recentemente), enojados pelo constante fluxo migratório fora da lei. Numa fatalidade, indiretamente são responsáveis por vitimar Olivia (Amy Madigan), mulher de um ex-xerife local, Roy (nas mãos do sempre impecável Ed Harris), que guarda certo preconceito para com o povo vizinho. Acusado de ser o responsável pelo acontecido a Olivia, Miguel é preso, enquanto o pragmático Roy tenta desvendar o que, de fato, ocorreu naquela terra de ninguém.

“Lugares esquecidos, reinos falidos sempre guardam segredos de mim” (Mille Petrozza)

O filme trata sobre como as relações pessoais se deterioram, seja a priori ou a posteriori. Seja pelo preconceito advindo de um discurso famigerado que sequer fora problematizado por quem o reproduz, seja pelas falhas cometidas por conterrâneos igualmente sofredores, mas que, quando a chance bate à porta, não pensam duas vezes em agir como aquele que os oprime. O sonho de todo presidiário não é ser livre; seu sonho é ser o carcereiro. Dessa forma, os personagens tentam lidar com as perdas constantes em seus caminhos, tentando se reconstruir a partir dos escombros que surgem dos conflitos pessoais. Em uma conclusão extremamente instigante e evocativa, Michael Berry demarca a existência de barreiras concretas, ainda que todos sejamos nada além de um simples humano. Demasiado humano.

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