A arte compartilha um denominador comum entre suas muitas formas: a capacidade de absorver o que lhe rodeia. Seja na música, pintura ou cinema, tudo que é feito carrega marcas do que acontece naquele exato momento. Isso vai desde recortes históricos mundo afora até as peculiaridades mais pessoais possíveis. Como quando você ouve uma música num momento ruim, não importa sua letra, o sentimento que habitava em você é tatuado naquela faixa e é despertado quando repetida. Um estudo disse que a música nos dá “orgasmos na pele” por causar arrepios em situações biologicamente desnecessárias. Nosso corpo, em tese, só produziria calafrios em casos de risco ou alívio, como forma de alerta. Porém uma boa música pode causar tremiliques, apesar de estar fora desses dois cenários. Interessante, né?

O fato é que, se sozinha a música já faz um estrago, posta no cinema (corretamente) então… é algo fantástico. E o diretor John Carney tem o que eu chamo de uma mão boa pra isso. Conhecido pelos musicais Apenas Uma Vez (2007) e Mesmo Se Nada Der Certo (2015) – infelizmente em traduções lamentáveis para o português -, Carney é um cara que claramente tem conexão emocional com melodia e poesia. Ele insere nesses filmes uma personalidade musical, traduzida em algumas características comuns a todos. Todos os seus filmes têm artistas de rua e têm suas histórias correndo em função da música, consagrando-a como essencial meio de comunicação. Os personagens só se conectam através do amor por ela. As histórias só acontecem pela premissa musical. Tudo gira em torno disso – é inteligente e ainda consegue ser orgânico. Um musical orgânico, porra!

Paul McCartney e John Lennon em 1975 (IGUAIZINHOS!)

Em “Sing Street”, diferente dos filmes anteriores do diretor que carregam questionamentos amorosos mais profundos – porém, sempre mantendo a atmosfera leve – vemos a saga de Conor (Ferdia Walsh-Peelo) para conquistar a garota dos sonhos, Raphina (Lucy Boynton). O moleque tem a ideia de formar uma banda e se beneficiar da atenção que uma posição de vocalista é capaz de trazer ali, numa atmosfera onde o rock explodia. É uma gracinha o quanto o filme passa tudo numa linguagem inocente mas ao mesmo tempo amadurecida, sem deslegitimar o sentimento do garoto pela moça por eles ainda serem jovens. A questão da puberdade e seus dilemas é bem temperada aí, deixando o filme interessante e coerente dentro da mundanice adolescente.

Tudo isso aí rola em plena Dublin dos anos 80, bombardeada pelas influências do rock mundial com ícones do tipo David Bowie e o grupo Duran Duran – apesar dos supracitados McCartney & Lennon (que morre só no fim de 1980) estarem firmes e fortes em suas carreiras solo, ok ? Outro aspecto que achei legal no filme foi o tributo aos estilos musicais que a banda de Conor escolhia como influência: desde o post-punk ao mais romântico, suas roupas e músicas homenageavam bandas como The Cure e The Jam.

Ternos azul ciano cintilantes aveludados com ombreiras… Ah, os anos 80….

Por fim, o filme estabelece uma história simples e sem reviravoltas. A proposta, como de costume, mantêm-se honesta, fofa e de gostosa qualidade. Com exceção de alguns deslizes cá e lá de roteiro, na minha opinião passáveis em uma vista mais grossa em função do produto final, o filme entrega um bom divertimento e reafirma a importância da música e o potencial que tem de fazer a diferença. Na realidade, a música aqui é só uma palavra que o diretor escolhe para ovacionar a arte no geral, em especial a sua capacidade de transformação. O escarro tomado, corte sofrido e mágoa são matérias primas na mão de um artista – assim como sensações palatáveis são também. É uma delícia estar apaixonado e registrar o sentimento em poemas e músicas, seja produzindo (como faz o personagem) ou só ouvindo e criptografando a memória nas notas musicais.

Romance sem grandes melações, música e Irlanda: sounds good, doesn’t it?

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