Prometo que eu vou tentar a todo custo evitar clichês como o de falar que Chef é um filme delicioso, saboroso ou qualquer outra obviedade relacionada à comida. Prometo também que falharei miseravelmente. Chef (escrito, dirigido e estrelado por Jon Favreau) é uma delícia. É aquela moela ensopada que sua vó fazia quando você era criança, mas você, sendo uma criança chata e criada a base de Sustagen com leite ninho, achava uma merda e tinha nojinho. Aquela mesma moela que depois, já adulto, você comeu novamente e percebeu o quanto ela, apesar de barata, simples e frugal, era um absoluto deleite ao paladar por nenhuma razão que não pelo fato de que era feita com carinho, esmero e, puta que o pariu, pela sua vó.

No filme, Jon Favreau – conhecido pelo publico em geral por ter dirigido “Homem de Ferro” 1 e 2, mas também responsável pelo roteiro de uma jóia do cinema independente americano, “Swingers: Curtindo a Noite” – faz uma analogia tão óbvia quanto deliciosa entre a gastronomia e a própria indústria do entretenimento e da arte, em especial a do Cinema.

Aqui, além de escrever e dirigir, ele interpreta Carl Casper, um chef respeitado na cena gastronômica de Los Angeles, onde é o chef principal já há alguns anos em um restaurante também de bastante renome. Casper, porém, passa por um marasmo criativo e quer incrementar o menu do restaurante onde trabalha, sendo tolhido em cada oportunidade por Riva, dono do restaurante vivido breve e excelentemente por Dustin Hoffman.

Olha só esse brisket…

Estes embates entre chef e chefe são saborosamente evidentes enquanto uma metáfora para o que acontece dentro da indústria do Cinema americano, com Casper fazendo o papel do artiste e Riva o papel do produtor que não se importa com a expressão artística de seu contratado, mas, sim, com o resultado financeiro da arte explorada.

Coisas acontecem, e eu não vou dar spoilers do quê, que forçam Casper a se demitir do restaurante de Riva, o que o leva a sair pelos Estados Unidos em busca de sua identidade, de sua alma, de, enfim, seu amor por sua arte novamente. Tudo isso embrulhado em um road movie em companhia de seu filho e de seu sidekick latino (vivido sempre galhofeiramente por John Leguizamo) que, como costuma acontecer em Hollywood, aparentemente não tem vida pessoal e vive para servir a seu mestre, seguindo-o aonde for para ajudá-lo no que for necessário. Não fosse Casper a expressão real do artista reencontrando a verdade em sua arte e, por consequência, conquistando a lealdade e admiração das pessoas, o sidekick latino seria até ofensivo (e ainda assim talvez o seja).

Arroz con Pollo $8, caso vocês estejam curiosos.

Nada neste filme é genial ou originalíssimo. Tal qual a moela de vovó, a película é correta, pessoal, intimista e transborda amor em sua confecção. Uma certa cena em que Casper faz um simples queijo quente para seu filho é a síntese exata do que é esta obra. São 30 segundos de puro esmero técnico em cada tomada, na captação do som, na edição e na fotografia, e tudo em prol de algo tão banal quanto o preparo de um queijo quente. Não há aqui lugar para câmaras tremidas, filtros azuis ou drag queens sacrificando um galo diante da xerox de um fax de uma foto de Adolf Hitler de sunkini enquanto come (porque não?) moela.

Este é um filme, em suma, que lembra ao espectador que a boa arte não precisa chocar, não precisa inovar e não precisa ser genial. A boa arte precisa tão somente expressar os sentimentos e anseios do artista, precisa tão somente ser autêntica e verdadeira. A boa arte precisa do ser muito antes do parecer. É isso que Casper busca e é isso que Jon Favreau consegue ao se libertar dos grilhões da indústria e gritar liberdade, não sem a ajuda de um elenco estelar que conta com Scarlett Johansson, Sofía Vergara, Dustin Hoffman, John Leguizamo, Oliver PlattBobby Cannavale e Robert Downey Jr., que aqui mais uma vez interpreta Tony Stark ou qualquer outro personagem de nome irrelevante ante a semelhança com as interpretações recentes do ator, o Francisco Cuoco de sua geração.

E essa nem é a coisa mais deliciosa do filme.

Chef é uma ode à verdade, à arte, à gastronomia e ao Cinema que, apesar dos clichês (e talvez muito por causa deles) funciona muitíssimo bem, provando que clichês são clichês por uma única e simples razão. Eles funcionam.

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