Festa de 15 anos, ensino médio. Melhores amigas se reúnem e anseiam pelo encontro com a anfitriã, que é parte do bando. Durante a festa, localizam aquele grupinho nojento de meninas que dão em cima do gatinho da sala. Que vacas… Por fim, o cara popular chega e todas se derretem em cima dele. Mais tarde rola a coreografia pra AQUELA música, enchem suas caras e todo o restante do procedimento padrão. Em determinado ponto uma delas tenta se aproximar do boy e acaba a noite passando vergonha bêba na pista de dança. Tudo soa perfeitamente familiar no mundo adolescente, salvo a bebida que seria disfarçada por algum refrigerante do tipo soda, não? Algo do tipo certamente habita minhas memórias. No entanto, essa é a cena de abertura do filme “Gostosas, Lindas e Sexies”. E não estamos falando aqui de meninas de 15 anos…

A partir de agora quero que você, leitor, mentalize a todo tempo a definição da expressão “vergonha alheia” enquanto estiver lendo essa crítica.

O filme traz no trailer e título promessas empoderadoras em relação ao papel feminino. A história entrelaçada de quatro gordinhas independentes lidando com os (cof cof) desafios (?) da vida como fêmea. Acredito que a proposta pseudo-feminista se estruture na simples inserção de mulheres como protagonistas de um filme. Pronto, é filme com mulher JÁ DEU VAZÃO, foda-se o conteúdo. Patética e ironicamente, a história de cada uma acaba existindo em função de homens. Tânia (Lyv Ziesetem um marido cuzão. Ivone (Cacau Protásio), ainda que seja o símbolo de independência financeira do filme, precisa arranjar um cara pra transar. Marilu (Mariana Xavier) tem fogo no que rima com seu nome e reproduz o típico papel do garanhão galinha versão mulheril. Bia (Carolinie Figueiredo) é uma babaquinha que fica dividida entre dois caras. Céus, será essa a simplificação da vida da mulher bem resolvida, gata, gostosa e tudo que o filme brada tanto?

(eu disse pra mentalizar a expressão vergonha alheia… continue mentalizando….)

“Olha ali que ridícula ela respirando. Garota escrota…”

Agora vem a parte em que meto o malho em especialmente algumas passagens do filme. Vou chamar de Momento “QUE PORRA É ESSA, BICHO?” do Metafictions:

QPÉEB 1: O filme tem a participação/ponta da maravilhosa Juliana Alves como empregada dessas quatro malucas aí. Em determinado momento de crise do relacionamento de Bia, a moça resolve dar um conselho desses de explodir a cabeça de qualquer um: valorize o amor que tem. Blá-blá-blá… até aí nada novo sob o sol dos romances água com açúcar. É aí que, meus caros, a seguinte frase surge, como um verdadeiro corte no meu próprio fígado: “Eu já tive um homem que amei mas não dei valor, e olha que ele me aceitava negra, empregada…”. Nesse momento eu pensei em levantar do cinema, ir até o centro da tela e perguntar “VOCÊS TODOS OUVIRAM ISSO?!”. Como é que RAIOS colocam uma fala tão absurda dessas ? Quer dizer que é defeito, porra, ser empregada e/ou negra? O pobrezinho do homem tem que fazer esforço pra aceitar essas verdadeiras sujeiras? Eu ainda estou descrente do que eu ouvi. Por favor, peço que alguém que assista ao filme legitime minha sanidade e minha boa audição. Torço pra que eu esteja sob efeitos colaterais de remédios para dor nas costas.

QPÉEB 2: Outro momento digno de nota é até onde o desespero sexual de uma fêmea pode chegar, segundo esse longa gracinha. Parceiro, imagina que você é sequestrado e tá naquela seca. Aí teu sequestrador é um cara boa pinta e você se interessa em tirar o atraso com ele, pois POR QUE NÃO? Afinal, um copo de café  e um… sequestro relâmpago… não se negam a ninguém (?). Eu tô confusa.

QPÉEB 3: Uma personagem mete o cacete no marido e na amante e recebe aplausos e reconhecimento público que aquilo tá é certo mesmo, tem que tirar sangue da cara desses safados. Not. Funny… apelativo, apelativo… fora a reafirmação da falácia que a amante é uma inimiga da esposa, que é uma cretina que merece tapa na cara. Mais uma vez, vemos nas telinhas mulheres sendo jogadas contra mulheres… se eu tivesse religião, era a Deus que eu clamaria agora.

Quadro “A piscina das lágrimas inimigas” (óleo sobre tela, 2017)

Acredito que esse filme seja um tiro pela culatra, mas não do tipo mal calculado, sem querer. Ele foi feito pra ser réles e nas coxas mesmo, o que não tem problema, mas tudo tem um limite. Há filmes bostões por aí que te trazem o mínimo de entretenimento e causam aquele guilty pleasure. Mas, para mim, não dá pra extrair prazer de uma sequência de cusparadas com catarro amarelo-esverdeado no meu orgulhoso intelecto feminino. Em especial escarradas dirigidas, escritas e produzidas por homens que parecem não fazer ideia da blasfêmia que cometeram.

A segunda grande temática do filme, ou a concomitante com todo o discurso pró-fem, que é o positivismo corporal, é melhor abordada quando comparada ao todo. Há passagens OK, ainda que bem senso comum, que defendem que ser gordinha/gorda não impede mulher alguma de ser bonita e poderosa. Na minha visão, não são o suficiente para atribuir ao filme grandes importâncias neste espaço anti-padrão de beleza. De qualquer forma, acredito que haverá gordinhas que curtirão esse discurso ainda que ele esteja bem na beirada. Por conta disso, alguma coisa o filme tem de bom. Ah, também tem a presença do Marcos Pasquim, meu primeiro amor da televisão brasileira (Marcos, o sentimento ainda não morreu: vê se me nota, eu te passo meu WhatsApp). No mais, gostaria de ter investido esses 110 minutos deitada na minha cama assistindo Netflix. Dá pra ser gostosa, linda e sexy direto das cobertas, obrigada, por nada.

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