Eu li quadrinhos assiduamente por 15 anos, em especial os títulos da Marvel. Qualquer coisa publicada pela Marvel eu consumia. Passava minhas manhãs de sábado com meu pai em um sebo na aprazível Estrada do Cacuia, na Ilha do Governador, vasculhando aquele monte de gibi antigo para ver se achava alguma coisa nova, alguma coisa diferente, algo que eu ainda não tivesse lido, mesmo que para tanto eu tivesse que segurar minha vontade de reler qualquer coisa da Turma da Mônica que aparecesse por lá.

Isso fez com que eu consumisse basicamente TUDO que a Marvel publicara no Brasil entre as décadas de 60 e 90. Mesmo assim, eu só havia lido algumas poucas aventuras que faziam remotíssimas referências aos Guardiões da Galáxia, mesmo tendo eles sido criados em 1969. Parei de ler gibi assiduamente no final dos anos 90. Dali em diante, eu só ficava sabendo de coisas como o Wolverine e o Hércules terem se pegado fortemente, o Homem Aranha não mais ser o sobrinho da Tia May e o Capitão América se tornar um agente incubado da Hydra.

E, mesmo assim, nada de Guardiões da Galáxia. E é esse talvez o maior trunfo dessa franquia.

Os Guardiões de 69 e os de 2008. Detalhe para Drax, ou seria o Kratos?

NINGUÉM sabia absolutamente porra nenhuma a respeito deste grupo e é claro que por ninguém eu me refiro a qualquer pessoa que não fosse um tarado pela Marvel a partir de 2008, ano no qual essa nova versão dos Guardiões começou a ser publicada. A despeito disso ou, desconfio, por causa disso, a Marvel viu potencial e resolveu despejar uma grana na mão de James Gunn, que até então era conhecido por criar uma série sobre pornografia (que, JURO, eu nunca vi), para fazer o primeiro longa.

Deu muito certo. O 1º filme foi um sucesso absoluto, alçou Chris Pratt à fama internacional e chegou até mesmo a concorrer a dois Oscar técnicos. Era evidente que uma continuação seria feita e cá temos Guardiões da Galáxia Vol. 2, título que faz piadinha com o fato de que um sujeito que tem um traje espacial do tamanho de um kinder ovo no bolso escuta suas músicas em um walkman. Não dava para esse jumento ter voltado à Terra uma vezinha que fosse e comprado uma porra de um iPod?

Enfim, encontramos aqui Peter Quill (Chris Pratt), seu crush Gamora (Zoe Saldana), Drax (Dave Bautista) e dois bichinhos feito em computação gráfica conhecidos como Rocket (voz de Bradley Cooper) – ou Rocky segundo a inexplicável legendagem brasileira – e Baby Groot (cujos grunhidos fofolescos ficam à cargo de Vin Diesel), lutando contra um ser interdimensional por um motivo que é tão relevante quanto é divertida a cena de abertura.

Esta cena já descreve em 3 minutos exatamente o que é o filme. Tiros para todo lado, boas piadinhas vomitadas a cada segundo e efeitos especiais como nunca se viu antes servindo apenas como escada para cada segundo de tela que Baby Groot tem. Sério. O filme devia se chamar “3 Solteirões Intergaláticos, um Guaxinim e um Bebê”.

É uma cilada, Jack!

Exageros à parte, o longa tem uma proposta de discutir o próprio conceito de família. Peter reencontra seu pai, Ego, interpretado por um Kurt Russell rei da canastrice como sempre. Gamora tem uma DR violenta com sua irmã. Drax remói o passado e encontra conforto no presente. Rocket quer mais que tudo vá para o caralho. E Baby Groot é como se fosse o filho dessa enorme e bizarra família.

E é aqui que está o grande acerto do filme. Ele consegue, em um tempo relativamente curto, desenvolver histórias completas de cada um desses personagens, apresentando um arco de começo, meio e fim para cada um deles, sempre se valendo do conceito de família como esteio.

Infelizmente, o mesmo não pode ser falado a respeito das soluções encontrados pelo roteiro para apresentar ao espectador aquilo que todo mundo foi ao cinema ver: ação. As próprias cenas de ação também não são das mais inspiradas, com mais de uma situação daquela cena clichezenta de uma pessoa se segurando na beira de um precipício com uma mão enquanto segura uma segunda pessoa com a outra mão livre e geme com o esforço, mas tudo acaba dando certo no final.

Acho que alguém está a fim de chupar um picolé de chuchu…

O mesmo vale para as interpretações burocráticas da maior parte do elenco; se Kurt Russel está canastrão como sempre, a Gomora de Zoe Saldana está o total oposto, fazendo jus a sua pele verde e implorando para que eu a chame de picolé de chuchu (mas não o farei). O meu destaque absoluto aqui vai para o Yondu de Michael Rooker e para o Drax de Dave Bautista, em um papel que pela primeira vez em sua carreira não lhe obrigou a demonstrar sua proeza física.

Drax, o Destruidor, nos quadrinhos é um personagem criado por Mentor, pai de Thanos, justamente para matá-lo. É um ser triste, obstinado e cheio de ódio no coração. Aqui, ele é uma espécie de Tiririca: um sujeito boa praça, que está sempre rindo da cara dos amigos e gargalhando loucamente a cada oportunidade que lhe é apresentada, contagiando o espectador com sua risada hilária. E é ótimo que seja assim e se você não sabe quem é Thanos ou Mentor, então eu te garanto que é ótimo que seja assim também.

Drax “Tiririca”, o Destruidor

Tudo o que falei, contudo, é jogado fora a cada vez que aparece o Baby Groot. A direção não faz a menor força para esconder essa apelação fodida que é colocar uma árvore bebê e fofa pra caceta balbuciando “I am Groot” enquanto não consegue seguir os comandos mais simples, como não enfiar o dedo na tomada, e tenta lutar com ratos alienígenas. Apesar de ser um artifício usado um pouco exageradamente, Baby Groot funciona perfeitamente.

De todo modo, trata-se de um filme bom, que cumpre aquilo a que se propõe cumprir com alguma competência. Vai provavelmente agradar quem gostou do primeiro filme e tem fan service o suficiente para agradar aos fãs da Marvel.

Vale lembrar aqui que este filme tem realmente 5 cenas pós créditos, o máximo de falas que Stan Lee já teve em um filme da Marvel e ainda conta com uma ilustre participação de Howard, The Duck, protagonista do melhor filme de super herói já feito na história.

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