– Uma Breve Introdução:

O ano é 1920.  Homens de cartola, mulheres com vestidos longos e saias desbotadas se engalfinham na entrada carregando seus incontáveis marcos em carrinhos de supermercado para comprar simples entradas de papel. Dessa maneira, ingressam, almas penadas buscando nos kinos escapismos baratos, narrativas fantásticas, para afogarem as mágoas de um império náufrago. Espírito quebrado e contorcido contra as miragens de um oásis que nem sequer chegou.

Todavia, por certa magia, enquanto a alma alemã se partia em cada esquina, padaria ou bulevar, no escuro, na ribalta do projetor, um espelho de fumaça pulsava e crescia pelas mãos de Fritz Lang, Murnau, Pabst e tantos outros, pioneiros, desenhistas e trapezistas da tela assombrada.

Premonição, destruição, reflexo, visão, loucura, existem muitos adjetivos cabíveis ao expressionismo alemão. Movimento com mais de 10 anos de duração e sem nenhuma coordenação. Entre esses cineastas não havia manifesto, revista ou acordo, era cada um por cada um e no final, por acaso, por predestinação, cada um deles desenhou, a sua maneira, com sua palheta, o mesmo ovo da serpente, médico que em busca de cura se mergulha no monstro. No desespero, momentos derradeiros de sua inquebrável agonia, a Alemanha enviou um pedido de salvação, que até hoje ecoa em qualquer ácido cinéfilo de papelão.

A cada cena o surreal vai se esvaindo, realidade e ficção terminam por se fundir e se confundir, deixando os vampiros livres, sonâmbulos fora de suas camas e vidros, quebrados. Analisar o Expressionismo Alemão é falar da câmera de gás, delírio ariano temperado com as óperas de Wagner e um super-homem mal interpretado que denigre o cadáver de Nietzsche. Engana-se quem pensa que as sombras desse tempo se perderam com as cinzas do Reich. Retratando o abismo, a certeza e autoritarismo que levam de pezinho em pezinho à loucura, o movimento se tornou não apenas pertinente, como atemporal.

Em momentos como esses em que o mundo vai se jogando numa fria e orquestrada ordem de caos, é necessário voltar a 1920. Naquelas películas há a dor de saber o que vai acontecer e nada poder fazer, observar homens e mulheres de boa índole se converterem/ em farrapos, ovelhas perdidas entre os dedos ágeis e nem um pouco maleáveis, de falsos profetas.

E na tristeza da premonição, os cineastas dessa época inauguraram um novo cinema, pavimentado por paixão. Carregado de técnica, fumaça e destreza. Arte que sabe o que diz, com muita ambição. Essas receitas, de Weimar, Munique e Berlin foram exportadas e construíram mansões e mais mansões pelas áridas rotundas de Bevelry Hills.

O cinema precisa se revirar, se contorcer rumo a tela assombrada. Porque foi ali entre O Gabinete do Dr Caligari e O Testamento do Dr Mabuse, o projetor deixou de ser simples decoração, passou a ser espelho integral de seu tempo, ruína da batalha entre o sagrado e o profano, ficção e realidade. Médico e monstro se dilapidando no fechar das portas, apagar das luzes, antes que a loucura inundasse as mentes e levasse tudo para Auschwitz.

Por isso, com meu pequeno e torto conhecimento elaborei esse pequeno guia, com as obras ao meu ver fundamentais para entender como nós podemos chegar as vias de fato com nosso homem-lobo, insuportável Hobbs interior. Entender como Fritz Lang e Murnau dançaram no precipício que só eles enxergaram, e muitos e muitas se atiraram, pensado ter encontrado um turvo deus.

Todos os filmes aqui citados estão disponíveis com legenda em português no YouTube, por mais árduos, cansativos, mudos e em preto e branco que sejam, eles merecem um lugar na sua coleção de vistos ou para assistir.

Já aviso desde já, posso soltar alguns spoilers, entretanto a poesia dessas películas raramente é o enredo em si, mas sim a maneira desses gênios lapidarem humanidade, em imagens em movimento, relato nenhum, análise nenhuma pode arranhar o sentimento de ver a silhueta do macabro Nosferatu pela primeira vez, ou toda sequência da Torre de Babel em Metrópolis.

Cesso com as explicações, meus por quês e meus pardons. Miro e atiro minhas palavras num portal do tempo, e reproduzo 1920. Os vestidos longos, as cartolas e saias desbotadas. Abismo que permanece pulsando em todos nós

 

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