O Testamento do Dr. Mabuse

Direção: Fritz Lang
Roteiro: Fritz Lang & Thea von Harbou
Produção: Seymour Nebenzal

“Só nos curamos de um sofrimento depois de o haver suportado até o fim”
Marcel Proust

No final do Gabinete do Doutor Caligari a ordem é restaurada, o doutor em sua sacra sanidade isola seu paciente, habitante de seu próprio mundo de papel. No último filme de Fritz Lang em sua pátria, as certezas se esvaem, o sagrado finalmente é profanado. O Doutor se junta ao paciente.

O expressionismo alemão é em suma uma única narrativa, de como as luzes opacas, do lucro, da ciência escravizada pelo progresso burguês, coagiram o ser a um universo sem porquês. No devaneio de curar as sombras, foram aos poucos corrompendo as lâmpadas, até que nada sobrou, nem vampiro, nem herói mitológico, simplesmente não há salvador. Existem, todavia, monstros, de vestes pudicas e semblantes messiânicos, esperando às margens o navio naufragar no porto.

E é nessa dor de ver o Sol adoecer, as estrelas desabarem e o céu se encher de luas sujas que paira a dor daquele que, para mim, é o maior movimento da história do Cinema. O Testamento do Dr. Mabuse é o fim de uma era, de uma forma de se fazer cinema, de uma visão que iria agora se concretizar fora das telas. A assombração finalmente tomaria corpo, alma e cinzas.

Sequência direta de Dr. Mabuse, O Jogador, a película é a última colaboração entre Lang e Thea, chegando aos cinemas meses após o Partido Nacional Socialista ser atirado ao poder. Em seu último alerta, Fritz continua a história de Mabuse, macabro doutor que hipnotiza a fim de cometer crimes. Agora preso no hospício do professor Baum, encontra-se incapaz de falar, porém está convencido a continuar a hipnotizar e fazer seus sonâmbulos cometerem as maiores atrocidades. A trama tem idas e vindas e aposta num jogo de gato e rato, entre detetives investigando crimes e a obsessão de Baum para com Mabuse.

Está tudo ali, a técnica implacável de Lang, com as memoráveis sequencias do fantasma de Mabuse abrindo as portas do hospício, o roteiro sóbrio de Thea e a volta do aspecto sobrenatural. Porém o que nos importa de fato é o final, o renomado professor, responsável pelo hospício, na sela de seu paciente mais ilustre, rasgando seus papéis, já sem um pingo de si mesmo.

No corpo de Mabuse, Caligari se junta a cela de Frantz. A criatura, o criador, sonâmbulos, hipnotizadores, Hitler, Himmler, faces da mesma moeda, buscando grandeza e se afundando na própria loucura.

No fim, apesar de todo o progresso técnico, da maestria na direção, dos cenários e fotografia, o movimento em si fica, acima de tudo, como prova artística que, na ânsia de curar, podemos terminar por abrir nossas piores feridas. E quando elas começam a latejar, não há para onde ir. Tornam-se enormes fendas a imergir e sugar o que fomos e o que queríamos ser, restando apenas comandantes e soldados, doutores e pacientes, separados por formalidades, unidos pela mesma incapacidade de perceber as teias de aranha os envolvendo.

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