– Uma Breve Conclusão:

“Os fantasmas da noite pareciam reviver das sombras do castelo”
Nosferatu

Em todas as obras de Murnau, portas fechando são uma marca nítida e comum. As trancas girando, abismos se alastrando, não posso afirmar as intenções do mestre germânico com suas lindas tomadas, entretanto eu as guardo como eterno lembrete. Não importa para onde rumemos, não importa para onde nosso corpo levite e seja conduzido pelas mãos gentis do vento, uma porta sempre se fecha. Estaremos sempre trancafiados, na companhia de somente nós mesmos.

Para mim o expressionismo alemão é sobre aceitação. Das próprias trevas, de um passado marcado por castelos, agora em ruínas e sonhos de uma cultura transcendente, que se espatifou. Aceitar as sombras em nosso plasma, o sangue fervendo na palma de nossas mãos, a besta em cada um de nós. A Alemanha, mesmo com os alertas de Lang, Murnau e Pabst não conseguiu se reconhecer, abandonou o espelho do projetor e se inclinou à febre do bode expiatório. O país de onde tudo eclodiu é a prova definitiva que não adianta procurar os fantasmas nos outros, por mais fracos e culpados que pareçam, nosso demônio e nosso anjo estão em cada respingo e milímetro de nossa alma e para vencê-lo precisamos conhecê-lo, jamais negá-lo.

Depois de devastada, mutilada e assassinada, a pátria do Reno saiu das cinzas, porém nunca se esqueceu da agonia que causou, das vidas ceifadas por sua ilusão com as suaves notas de Wagner.  Nós nem sequer punimos os torturadores e ditadores, que espalhavam ratos por bocetas inocentes. Alguns ainda reconhecem neles nosso espírito, nossa moral.

Hegel, imortal pensador da Prússia diz que não importam os percalços e campos de concentração, a história chegará ao fim, apesar dos corpos deixados por seus obstáculos, nós, humanos, demasiado humanos, voltaremos ao Éden. E concordo com Hegel. Ainda acredito, apesar de tudo, em finais felizes. Todavia, aprendi com as portas de Murnau, e o exotismo de Fritz Lang que a chave para a sanidade é a memória. Para entender quem fomos. Aceitar o que somos. Alcançarmos o que seremos. Assim e somente assim a silhueta de Hitler permanecerá como cinzas, de um mero obstáculo. Assim e somente assim varreremos as sombras e mesmo trancados e enjaulados seguiremos, pelas fulminantes engrenagens da arte e da história.

“O homem não é a mais do que a série de seus atos”
Hegel

 

Se você chegou até aqui só posso dizer, muito obrigado e te premiar com mais conhecimento. Caso não seja o maior fã de assistir pela internet, recomendo demais as duas coleções do movimento lançados em terras tupiniquins. A mais recente pela Obras Primas do Cinema, uma edição belíssima com extras raríssimos. E uma mais antiga, mas muito bem trabalhada também, pela Continental (DVDS).

Link para todos os filmes indicados:

https://www.youtube.com/watch?v=fMuQpitplU8

https://www.youtube.com/watch?v=SWEuP1OGx6A

https://www.youtube.com/watch?v=LB-awsZAOjk

https://www.youtube.com/watch?v=uxq3J4D1IqM

https://www.youtube.com/watch?v=g2DS4AZsujY

https://www.youtube.com/watch?v=OcLbLuxa8YU

https://www.youtube.com/watch?v=Ow2YQaIcSy8

https://www.youtube.com/watch?v=AOkBHTkKr8k

https://www.youtube.com/watch?v=r9RLbwkVPoA

https://www.youtube.com/watch?v=NxAW2ZyHdhw

 

Indicações literárias:

From Caligari to Hitler (Siegfried Kracauer); também ver o documentário com o mesmo nome.
German Expressionism: Art and Society (Stephanie Barron)
The Haunted Screen: Expressionism in the German cinema and the influence of Max Reinhardt

 

Vídeos para lapidar o conhecimento

https://www.youtube.com/watch?v=ecuQdkBx1ic

https://www.youtube.com/watch?v=ndFysO2JunE

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