– Os Essenciais:

O Gabinete do Doutor Caligari

Direção: Robert Wiene
Roteiro: Hans Janowitz e Carl Mayer
Produção: Erich Pommer

“Você tem que se tornar Caligari.”

Era essa inscrição que pairava nos cartazes promocionais da obra, lá no epicentro do turbilhão, a Berlim de 1920. Para muitos o primeiro filme de horror de todos os tempos, uma matriosca narrativa, em que cada boneca é uma porta trancada num manicômio cinzento. Marco zero do Expressionismo Alemão, resume todo o espírito da coisa. Caligari é um ilusionista, recém-chegado para a feira de um pacato vilarejo. Todavia, não se trata de um daqueles mágicos supimpas, capazes de retirar cenouras de orelhas infantes ou falar com jacarés, Caligari tem um sonâmbulo. Desde sua chegada na cidade, assassinatos se distribuem como vapor d’água no ar, e Frantz um plácido cidadão, fica obcecado com o homem e sua besta humana. Construído num ritmo avassalador e um mistério arrebatador, a obra é taciturna, e nos conduz por um labirinto expressionista de cenários pintados, inigualáveis. Assistir O Gabinete do Doutor Caligari é passear por um quadro de Munch e se perder entre as mazelas e fagulhas do homem.

No controle total entre o ilusionista e seu sonâmbulo reside a profundidade e o seio do autoritarismo, Cesar (o sonâmbulo) foi privado de suas liberdades e verdades, vive para obedecer. Nessa privação de sentidos se encontra a dor da progressiva perda da consciência não só do povo alemão, como do mundo, naufragando como um galeão espanhol em um universo mecânico, regido por engrenagens, cujos dentes rasgam a alma e deixam o corpo mofar entre automóveis.

Em sua defesa implacável da liberdade e seu final inacreditável, a película funda o maior movimento da história da câmera, capaz de dar a tela o “guache da agonia”. O cinema não mais se restringia a mostrar a realidade, era agora livre para explorar perspectiva, a desarmonia entre os desejos do indivíduo e a sociedade da máquina.

Quando a porta do manicômio se fecha, deixando Frantz apodrecer, ficam claras as trancas impostas a nós e como veremos ao final de tudo, não importa o lado da grade, a loucura é nossa sina, nossa mais linda e prodigiosa amiga e inimiga.

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