Nosferatu

Direção: F.W. Murnau
Roteiro: Henrik Galeen
Produção: Enrico Dieckmann

Na minha longeva e saudosa juventude, os dias eram uma mistura de eternidade e Bob Esponja. Nunca fui um dos maiores fãs do calça quadrada, todavia me reservava a sacra capacidade de assistir uns 20 episódios e não cansar. Continuar com as pálpebras arregaladas e as gargalhadas afiadas.

Talvez a animação da Nickelodeon tenha me proporcionado um dos maiores tempos perdidos de minha narrativa, todavia a Fenda do Biquini, por mais curioso que seja, foi o começo do expressionismo alemão para mim.

Foi num episódio da segunda temporada, permeado por terror e agonia, capaz de fazer minha atual versão se arrepiar com as lembranças agridoces de Bob preso nos confins da madrugada no noturno e taciturno Siri Cascudo. O toque de confeitaria, no entanto, só chega no final do episódio. Quando tudo está resolvido, o terror dissipado e as crianças e pais aliviados, eis que Lula Molusco, personagem até hoje profundamente identificado comigo, pelo tamanho da narina, indaga:

“-Mas quem apagou as luzes.”

Eis que a câmera foca para uma imagem em preto e branco, uma carranca deformada em um sobretudo negro, pálida como leite virgem, que aos poucos desliza suas mãos pelo interruptor e esboça um sorriso de rara e ambígua melancolia .

“-Nosferatu!!!!”

E é assim, a referência é jogada e pisada, por quase todos os infantes espectadores da Nickelodeon. Talvez alguns tenham se perturbado, passado noites em branco se perguntando de quem se tratava. Porém nenhuma obsessão se comparou a minha. Passei 5 anos remoendo o nome “Nosferatu”. Quando colocava a cabeça no travesseiro, a imagem, careca com orelhas pontudas, inundava minha mente e apagava as luzes do meu sono.

Guardei-a com carinho, guardei-a com terror.

E assim que meus grosseiros e gorduchos dedos encontraram o Google, eles não tardaram em digitar “Nosferatu”.

Dessa maneira, Bob Esponja ganhou contornos imortais em minha vida. Assim Bob Esponja foi o epicentro de Murnau em mim. Porque, como minha versão 1.0 iria descobrir, Nosferatu não era coadjuvante da Fenda do Biquini, participante da Nick pós 12:00 ou um Vin Diesel deturpado.

Trata-se de um vampiro, com traços aristocráticos e preservando a decadência de uma rugosidade temporal, filho das trevas num mundo de luz. Criatura símbolo, do movimento que passaria a alegrar minhas tardes e decepar meus sonhos pela manhã. Protagonista de uma das mais visionárias e essenciais películas do cinema, que compartilha seu nome e ares demoníacos.

Não acho que Murnau fez a obra pensando que seria referenciada quase um século depois numa animação ianque para meninos e meninas do pós modernismo ocidental. Mas o esmero e a beleza são tão intrínsecas que a homenagem não é apenas justa como bem vinda. O diretor alemão adapta a clássica história do Drácula de Bram Stoker, porém não consegue a autorização da viúva do mestre irlandês. Mesmo com o não na garganta e o tapa de película no rosto, Murnau fez mesmo assim. Não colocou Drácula no título, optando pelo ainda mais memorável e demoníaco título, Nosferatu para intitular a criatura trancafiada em caixões pelo dia e hemocólatra pela noite.

Mas o filme está longe de ser apenas um mera adaptação. Em seu seio está o pioneirismo técnico, apostando em cenários naturais tão novos na época. Com cenas ambiciosas e momentos memoráveis como Nosferatu chegando à cidade de Wisborg, num navio fantasma, a obra retrata o homem ambicioso e distante de qualquer escrúpulo, para satisfazer seus desejos. Expresso na figura trágica de Hutter, um agente imobiliário que na ânsia de cumprir seu trabalho e satisfazer seu chefe, vai ao encontro do conde vampiresco para lhe oferecer uma casa. Assim como uma mariposa ele mergulha no próprio fogo e atrai a figura raquítica e satânica para sua cidade, espalha involuntariamente peste, horror e sangue.

Flertando com história de amor, aventura e o recém fundado gênero terror, Nosferatu é mais uma moldura para a dualidade entre o homem e a besta sedenta por sangue, movida por ambição. 11 anos após a película seria a própria Alemanha a convidar uma figura ainda mais macabra para espalhar peste e sangue pelo mundo. E talvez o bigodinho não seja tão assustador quanto a palidez e a falta de gordura, mas o terror de Auswitch, Sachsenhausen foi muito maior.

No fim a obra prima ainda termina, com uma mensagem de amor, o salvador de Wisborg é uma improvável paixão do vampiro pela mulher de Hutter. Mas não há redenção para nenhum dos dois. O filme sofreu ostracismo graças ao processo pela viúva de Stocker e teve grande parte das cópias queimadas, porém sobreviveu a silhueta perversa do tempo e chegou até o Bob Esponja.

Película mais famosa de Murnau, melhor filme de vampiro da história, Nosferatu é um dos essenciais e particularmente um dos meus favoritos por seu visionarismo vampiresco. Só posso agradecer ao calça quadrada, e ter a certeza que a criatura interpretada genialmente por Max Schreck vai continuar apagando as luzes do meus sonhos.

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