Metrópolis

Direção: Fritz Lang
Roteiro: Fritz Lang e Thea von Harbou
Produção: Erich Pommer

O homem está na cidade
como uma coisa está em outra
e a cidade está no homem
que está em outra cidade

mas variados são os modos
como uma coisa
está em outra coisa:
o homem, por exemplo, não está na cidade
como uma árvore está

em qualquer outra
nem como uma árvore
está em qualquer uma de suas folhas
(mesmo rolando longe dela)
O homem não está na cidade
como uma árvore está num livro
quando um vento ali a flolheia

a cidade está no homem
mas não da mesma maneira
que uma pássaro está numa árvore
não da mesma maneira que uma pássaro
(a imagem dele)
está/va na água
e nem da mesma maneira
que o susto do pássaro
está no pássaro que eu escrevo

a cidade está no homem
quase como a árvore voa
no pássaro que a deixa

cada coisa está em outra
de sua própria maneira
e de maneira distinta
de como está em si mesma

a cidade não está no homem
do mesmo modo que em suas
quitandas praças e ruas

(Poema Sujo, Ferreira Gullar)

De todos os filmes expressados aqui, Metrópolis é de longe o mais difícil a respeito do qual se dissertar. A obra eterna de Fritz Lang, provavelmente película mais famosa de todo período, se prova um verdadeiro labirinto de luz e sombra, cópia fiel da nascente, de nosso mundo barroco-oco.

A distopia dos arranhas céus é o retrato de um mundo fragmentado entre as dualidades quebradas do rico e pobre, empregado e empregador, proletariado e burguês. Regido a mão de ferro por relógios, correntes, papel timbrado e uma ciência escravizada, deixada de 4 pelo progresso de luzes cada vez mais frias e opacas, Fritz e sua mulher e parceira no roteiro, Thea Von Harbou, moldam com vidros maculados por sangue, ódio e opressão o espelho da modernidade.

Todavia está longe de ser um documento ideológico anti-capitalista, assinado por ressentidos burgueses. Não, Lang e Thea se afastam do manifesto cinematográfico para buscar as linhas borradas, os mundos de papel machê. Os jardins aristocráticos, a bolha social de luxúrias e prazer maquinário. É a hipocrisia do proletário que aceita as correntes porque, tal como gado, só sabe sofrer. E nos dois cosmos, existe a dor de um mundo que não mais se entende, se dilacera e despedaça em ambições messiânicas e mecânicas.

Na análise do macro, a cidade e os arranha-céus do futuro, Lang analisa seu tempo, os desejos das classes e a pobreza da luta que já parecia perder sua fé, na ribalta da Alemanha de 27.  São as engrenagens de nossas máscaras tecnológicas, é a luxuria de querer ser deus, a silhueta da Jaula de Aço envolvendo com seus grilhões nossa nova Torre de Babel. O mundo, em seu sonambulismo vai comportadamente se atirando ao abismo. Num materialismo dialético pungente, a câmera de Lang é o triunfo do cinema como forma de arte.

Se Nosferatu desenhava o homem-lobo, a dualidade entre a besta e o racional, conflito entre os monstros do passado contra a luz da modernidade, Metrópolis corajosamente faz o contrário, expõe o horror da morte da besta carnal e a silenciosa vitória do intelecto racional, pavimentando o mundo de um cimento perfeitamente vazio.

Em seus cenários esplendorosos, estética futurista e a ginóide que entre outras coisas inspirou o melhor personagem de Star Wars, C3PO, a obra é um oásis de auto-reflexão sobre o que fomos, somos e seremos, pelas cruas frestas das persianos dos arranhas céus de Metrópolis, cidade do hoje que um dia foi amanhã e rezemos para que se converta em ontem.

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