A Última Gargalhada

Direção: F.W. Murnau
Roteiro: Carl Mayer
Produção: Erich Pommer

Existem obras capazes de traduzir épocas. Scott Fitzgerald é provavelmente o maior exemplo literário disso, com suas sílabas permeadas por Jazz e desiludidas com o sonho americano, o atemporal ianque se consolidou como um dos maiores escritores de todos os tempos com o Grande Gatsby, obra símbolo das festas, champagne e insensibilidade da época.

Se Fitzgerald traduzia os Estados Unidos da América, em A Última Gargalhada, o mestre Murnau é igualmente hábil em ilustrar o dilapidado espírito alemão. Se todas as coisas são metáforas, como diria o ídolo do diretor, Goethe, poucas são tão belas e bem dirigidas quanto essa magistral película. Mergulhando num velho porteiro de hotel, que de uma hora para outra perde o emprego pelo qual tinha tanto amor e zelo, e é obrigado a se juntar à equipe de limpeza, o roteiro de Carl Mayer vai fundo no sentimento de rejeição e humilhação, presente em toda alma da pátria do Reno, desde o expresso de Versalhes.

São nas pequenas humilhações e na incapacidade de aceitar um papel menor no hotel, que a direção de Murnau brilha, chamuscando e explanando dor, A Última Gargalhada evidencia a melancolia de quem de uma hora para outra viu seus desejos mais sagrados e ambiciosos se esfacelarem. O uniforme de porteiro, tão perseguido, marca o prestígio irrecuperável. Nas gargalhadas dos vizinhos ao saber da verdade está a agonia e o orgulho ferido, nesse abismo o porteiro se inclina a reclusão, a Alemanha por sua vez se atirou no ódio e numa salvação de fogo e sangue. Para si e para o mundo.

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