Fausto

Direção: F.W. Murnau
Roteiro: Hans Kyser & Gerhart Hauptmann
Produção: Erich Pommer

“O que passou, passou, mas o que passou luzindo, resplandecerá para sempre.”
Goethe

Nada mais justo que a melhor definição para a obra prima de Murnau vir diretamente do autor da matéria prima da película. Fausto não tem a ambição de Metrópolis, os cenários expressionistas de Dr. Caligari, muito menos uma criatura marcante e icônica como Nosferatu, mesmo assim, por sua consistência visual e adaptação miraculosa, é minha obra favorita de todo o período.

Falar de Fausto é falar de corrupção, o homem sábio e erudito, corrompido pelas tentações de Mefisto, atirado num espiral de juventude e hedonismo, universos supérfluos onde todo e qualquer ser encontra altas doses de prazer. A vitória da peste e do horror. E no filme de Murnau está tudo lá, os cavalheiros do apocalipse, as asas do demônio envolvendo a cidade, Fausto preso em seu mundo de ambição e tentação. Todavia, o diretor borrifa na película seu único e inigualável romantismo.

Se Murnau é hábil construindo sombras, é igualmente capaz de modelar a luz, responsável por queimar as paredes e persianas do quarto vazio e desmobiliado, alma humana, em tempos ermos de magos e bruxas. Mais do que uma história de corrupção a obra reluz como uma ode ao amor, como caminho de salvação e derradeira esperança. O sábio, rejuvenescido após o pacto, passeia pelos quatro cantos do mundo, experimenta tudo, entretanto seu vazio só pode ser preenchido por uma garota local.

Muitas vezes me pego em minhas próprias ilusões naifs, genuinamente boba-alegres, por trás do semblante fechado, da roupa escura, sou habitado por uma crença perene nesse bípede ingrato chamado ser humano. E quando não estou reclamando do Sol ou do vento, ás vezes não reprimo pensamentos e distribuo panfletos verbais. Em todos eles transparece essa filosofia romântica, o amor pode nos salvar. Mais do que deus ou demônios, esse sentimento pungente, escalador das entranhas, é a expressão mais pura de nossa espécie. Porque, se nos diferenciamos por poder fazer escolhas, nossa escolha mais linda é amar. A última cartela de Fausto comprova isso, não importa a época ou o grau de poeira, cimento e veneno correndo por nossas artérias, podemos nos liberar, basta olhar para outro e ali encontrar o fragmento perdido de si mesmo.

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