– Os Derradeiros:

O Golem, Como Ele Veio ao Mundo

Direção: Paul Wegener, Carl Boese
Roteiro: Henrik Galeen, Paul Wegener
Produção: Paul Davidson

Nenhum dos filmes dessa lista, ouso dizer que nenhum filme já feito, terá um víeis premonitório tão forte como O Golem, Como Ele Veio ao Mundo. Mesmo sendo do mesmo ano de O Gabinete do Doutor Caligari, mesmo sendo uma das primeiras obras a compor o robusto acervo expressionista alemã, essa película merece um espaço no final da viagem pela tela assombrada, porque é de uma tristeza, um ódio e agonia tão grandes que chega a ser quase insuportável.

Assim como muitos dos filmes desse guia, a obra traveste seus anseios e intenções numa narrativa fantástica e mitológica. Todavia, dessa vez quem ocupa a ribalta é o povo judeu. Ameaçados de expulsão de um vilarejo, uma espécie de líder da comunidade, com nuances de alquimista-mago, invoca o Golem, enorme monstro de pedra capaz de espalhar fúria e miséria. Os interesses por trás da invocação são simples: impressionar o rei local e impedi-lo de expulsar os judeus da cidade.

Nem mesmo minhas barrocas sílabas saberiam detalhar a hecatombe de esterco que transborda pela tela.

O fascínio que o filme exercia pela audiência da época foi primordialmente devido aos seus efeitos especiais, a verossimilhança e força do sombrio Golem. A cena da invocação é marcante, profusa, daqueles que cavam fundo na esclera. Hoje, nós estamos acostumados com pirotecnia visual e o moderno CGI, dificilmente nos impressionamos com o pioneirismo técnico da película, porém ficam nas quase 2 horas de filme algo muito mais profundo.

Na ilustração do antissemitismo, Golem, Como Veio ao Mundo ganha uma importância tão surreal como a criatura do título. É na ironia e contradição, de a história ter feito a Alemanha invocar seu próprio monstro de coração de pedra, que a obra ganha contornos imortais. Para alcançar seu objetivo, o povo do Reno fez tal qual o líder judeu, brincou com as fagulhas de um gelado fogo e deu luz ao demônio.

No fim do filme a criatura é vencida por sua compaixão por uma fraca e indefesa criança, essa tão emblemática cena mostra o quanto mais absurda e sombria a realidade pode ser comparada a ainda pueril ficção. Porque Hitler não teve pena dos infantes poloneses, holandeses ou até mesmo alemães. Por mais visionário que sejam o Cinema e a Arte, existem criaturas inimagináveis, fabricadas apenas pelas mazelas de nossa história.

Fica de lição: independentemente se realidade ou ficção, a criatura sempre se revolta contra o criador e os sonâmbulos, acordam.

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