Certa vez, deparei-me com a informação de que não importa qual ideia eu tenha para contar uma história, ela já foi contada. O alerta ia além e colocava – se não me falha a memória – cerca de vinte e poucos tipos de histórias possíveis, entrando nessa lista qualquer uma já produzida desde sempre. Apesar disso, continuamos a nos surpreender e nos emocionar semana após semana quando uma nova narrativa é lançada. Possivelmente porque em cada um dessas há personagens distintos, linguagem diferenciada, algum elemento (ou vários) que torna cada conjunto de cenas único. A Arte, portanto, permite a sua própria reinvenção, fazendo das vinte e poucas histórias uma oceano de possibilidades.

Inseparáveis nos traz a história de Felipe (em sempre impecável atuação de Oscar Martínez), um milionário tetraplégico, à procura de um cuidador. Quando encontra Tito (bem encarnado por Rodrigo De la Serna), ambas as vidas mudam. O espirituoso e pouco experiente auxiliar bagunça (de forma positiva) a vida do rico patrón, trazendo movimento àquele marasmo físico e, por vezes, mental. Mas… essa não é a sinopse do francês “Intocáveis“, de Olivier Nakache e Eric Toledano? Sim. É o mesmo. E quando digo o mesmo, aqui, estou querendo dizer que o filme é IGUAL. O MESMO de verdade.

Resultado de imagem para inseparables argentina

Sempre preferi uma história original a um remake. No entanto, entendo alguns casos em que uma obra é refeita (jamais entenderei, porém, a refilmagem de uma obra-prima!). Entendo, pois existe uma possibilidade de releitura daquela história, trazendo novos elementos a um conto já conhecido, transformando, consequentemente, a sua essência. Resulta que, nesses casos, estamos de frente para uma outra narrativa que tão somente inspirou-se em uma já existente. O que eu nunca vou entender é uma cópia de um original, como, por exemplo, “Quarentena (dirigido por  John Erick Dowdlefez a partir de “[Rec]” (dirigido por Jaume Balagueró e Paco Plaza), em que até mesmo os planos são idênticos. Sempre pensei que essa atitude era essencialmente americana, devido à preguiça de seu público em ler legendas. Então, ao invés disso, eles refilmam tudo em inglês. Meu susto foi tamanho quando vi uma produção argentina (as quais prezo demais por serem filmes geniais) realizar tal feito.

A construção dos personagens – bem como todo o resto do que é apresentado ao espectador, inclusive mesmo alguns planos – segue à risca o original francês (mudando um ou outro detalhe). Tito, o incontrolável e pobre cuidador, contrastando com a riqueza congelada de Felipe. Porém, a simbiose entre ambos é tal que um coloca o mundo pessoal do outro no lugar. Tito trata Felipe como amigo e não como um patrão, fazendo-o sorrir com suas atitudes intempestivas e pouco tradicionais. O milionário, por sua vez, esculpe a pedra bruta que é seu auxiliar. E, juntos, necessitando um do outro, eles vivem. Faz parte da natureza humana: o Homem não é um animal que consiga viver em total isolamento, ele precisa de um igual para tecer relações.

Resultado de imagem para inseparables filme argentino

Apesar de ser um tema que poderia sugerir angústia, já que estamos acompanhando a história de um tetraplégico (como é o caso do brutíssimo “Mar Adentro“, de  Alejandro Amenábar), Inseparáveis consegue ser leve, engraçado e te coloca para cima. Se a sinopse desencoraja alguém a assisti-lo, que o pôster do filme seja o contraste, re-encorajando o espectador. É um filme gostoso e divertido de se ver, que traz uma reflexão acerca de nossas vidas, especialmente em um momento em que a falta de desejo surge insistente em um público cada vez mais jovem (curiosamente aquele que deveria ter mais energia em suas buscas).

“Intocáveis” é o filme francês mais visto de todos os tempos fora do país. O filme teve seu apelo. Uma cópia não poderia resultar em uma produção ruim, já que o original teve tantos elogios. Apesar disso, Inseparáveis surge como uma cópia sem alguns elementos sedutores do francês, em especial a ausência de Omar Sy (no papel de Driss, o cuidador). Rodrigo De la Serna, apesar de estar bem, não carrega o carisma de Omar, um dos principais responsáveis pela aura suave e calorosa que o filme promove. A obra argentina é extremamente agradável; menos, porém, porque, neste caso específico, a comparação é inevitável. Após a conclusão – em que até as cenas reais, por se tratar de uma história real, são as mesmas apresentadas durante os créditos, em ambos os filmes – fiquei com uma pergunta me martelando: porque esse filme foi feito?

Sugestões para você: