Fazer a sinopse de uma biografia é uma tarefa muito fácil. Basta dizer o nome da pessoa e mencionar que se trata da história de sua vida. Simples. Este longa, então, é a cinebiografia do pianista e maestro brasileiro João Carlos Martins. Fosse ele Cazuza, Tim Maia ou Luis Inácio Lula da Silva, eu poderia parar por aqui, já que todos esses três são fenômenos populares conhecidos por 11 em cada 10 brasileiros quando em seu auge. João Carlos Martins, contudo, é provavelmente o mais extraordinário artista (e possivelmente ser humano) brasileiro vivo e, mesmo assim, a porcentagem da população brasileira que já ouviu falar dele é muito pequena, sendo ainda mais ínfimo o percentual de pessoas que já o ouviu tocar.

Em razão disso, antes de falar do filme, eu preciso apresentar o ser biografado.

João Carlos Martins era um prodígio aos 8 anos, mundialmente reconhecido aos 20 e referência universal aos 25, sendo considerado então um dos mais virtuosos (talvez o melhor) pianistas do mundo daquela e de qualquer época. É, sem sombra de dúvida, o músico clássico mais laureado e mais reconhecido universalmente da história deste país, com suas gravações da obra de Bach sendo tidas como referências absolutas da obra desse compositor.

Se suas conquistas artísticas já são suficientes para justificar a produção de um filme a seu respeito, as circunstâncias de sua vida lhe conferem um contorno fantástico e inacreditável. E aqui eu digo inacreditável na acepção real da palavra, já que João perdeu quase que totalmente os movimentos dos dedos das duas mãos largamente por causa de dois acidentes fortuitos. O primeiro durante um jogo treino de seu time de coração, a Portuguesa de Desportos de São Paulo (a lusinha), que sabe-se lá porquê estava treinando no Central Park (perto de onde João morava à época) e o convidou para participar também sabe-se lá porquê; e o segundo em um assalto na cidade búlgara de Sofia em que ele foi atingido na cabeça com uma barra de ferro, o que, incrivelmente, afetou seus movimentos de forma bizarra, já que ele precisava escolher entre falar e usar a mão (é isso mesmo, eu pesquisei).

Ocorre que João, espantosamente, conseguiu sempre se reerguer. Quando perdeu os movimentos da mão direita, o pianista resolveu tocar só com a esquerda. Quanto perdeu os movimentos também da esquerda, ele resolveu começar a reger. Quando sua condição piorou a ponto de impedi-lo de reger tradicionalmente, o maestro reinventou a forma de se reger uma orquestra e continuou a fazê-lo à sua própria maneira. Posteriormente, João ainda conseguiu voltar a tocar piano, ainda que sem o inigualável virtuosismo de outrora, usando apenas dois dedos de cada mão.

É sobre isso que o longa trata. Da obstinação e paixão obsessiva de um homem por quem ele é, por seu ofício e por sua arte, doa a quem doer, inclusive a si mesmo. E jaz aqui seu grande, ainda que único, acerto.

Infelizmente, a obra, dirigida e escrita por Mauro Lima (que já havia também dirigido e escrito a cinebiografia de Tim Maia), não faz jus ao personagem biografado. Talvez um tanto perdido diante da profusão de acontecimentos reais, ainda que inacreditáveis e absurdos, o roteirista e diretor os despeja na tela sem qualquer elo entre eles, no que é prejudicado também pela confusa edição. O que acontece aqui é parecido com o que já ocorrera em Cazuza – O Tempo Não Pára e que é muito comum nas cinebiografias nacionais. Temos apenas um emaranhado de acontecimentos e anedotas maravilhosos, mas sem que o roteiro as conecte de forma a criar uma empatia do público com o homenageado, em uma espécie de colcha de retalhos mal costurada.

As atuações, com poucas exceções como a do pai de João (Giulio Lopes), são burocráticas e pouco inspiradas, impressão causada muito por causa da edição confusa e do roteiro descoordenado, mas que também deve ser creditada a uma má direção de atores e aos próprios atores. As cenas em que João é apresentada como um homem mulherengo, da night e sem qualquer tato social parecem artificiais e contraditórias com a construção do personagem, sem contar duas cenas em programas de TV que chegam a causar constrangimento.

No entanto, todos os elogios precisam ser dados ao cuidado e esmero com que se tratou não só o som, mas todas as cenas em que o maestro está tocando, regendo ou fazer qualquer atividade relacionada à música. Apesar de seus defeitos, este longa é um prato cheio para amantes da boa música, em especial de Bach. A última cena é de tirar lágrimas dos olhos de qualquer um, prestando uma última e maravilhosa homenagem a este sujeito que tanto tem a ensinar e tanto já ensinou.

Apesar desse João, O Maestro ser uma boa fonte de informação sobre a história de talento, obsessão e superação deste ser humano excepcional, nada brada quem ele é mais do que a sua arte, perfeitamente resumida na música tocada no filme (toda ela tirada das gravações do maestro), na cena final e no vídeo acima de suas célebres “Variações de Goldberg” de Johann Sebastian Bach. Infelizmente, temos mais uma cinebiografia nacional feita de forma irregular e anedótica, salva desta vez, contudo, pela força magnética do biografado e, principalmente, de sua arte.

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