Em uma tarde chuvosa, em algum vilarejo remoto nos confins de Minas Gerais, a cabeça decapitada de Joaquim jaz sem vida em um pitoco enquanto o morto (em inspirada interpretação de Júlio Machado) narra aquilo que explica, em pouquíssimas palavras, a essência do que foi a Inconfidência Mineira e, derradeiramente, do que é o Brasil de hoje e de sempre.

O Joaquim do título se trata de Joaquim José da Silva Xavier, mais famoso por sua alcunha de Tiradentes, e é o maior herói nacional deste país, sendo o único sujeito não canonizado pelo Vaticano que tem um feriado nacional em seu nome. Este filme, contudo, não é sobre Tiradentes, mas, sim, sobre Joaquim e tão somente Joaquim. Não há aqui uma tentativa de se romantizar a vida do herói nacional, mas, acertadamente, de se especular sobre o homem que Tiradentes foi antes de se tornar o mártir da Inconfidência.

Encontramos Joaquim ainda como um jovem alferes de uma tropa mineira encarregada de proteger as rotas de escoamento da produção de ouro, além de ajudar no descobrimento de novos lugares a serem garimpados. Logo de cara, seus longos cabelos de Jesus Cristo são cortados, despindo-o de sua aparência messiânica e heroica, e deixando claro de uma vez por todas que veremos a história de um homem  comum. Um sujeito que se mostra galudo por Preta (interpretada pela luso-angolana Isabél Zuaa), tem piolhos, mente e trai para tentar alcançar seus objetivos.

Joaquim e Preta, em momento pós cunnilingus. Em 1770!

Suas ambições, como são as de qualquer ser humano médio, são simples e mundanas. Ele quer apenas ser promovido a tenente e ter dinheiro suficiente para comprar Preta, objeto de sua afeição e que é escrava de um outro sujeito. Ele quer, portanto, ter um trabalho melhor e poder viver o seu amor de forma plena, sem que o dono dela mande que ela se deite com quem ele bem entender. 

Não há em Joaquim qualquer pretensão separatista ou de realização de grandes feitos. Ele quer amar e quer ter algum dinheiro para poder amar. Isto, contudo, se mostra impossível, uma vez que a coroa portuguesa, na figura de seus muitos e abastados oficiais, não lhe permite, seja com a cobrança injusta e abusiva de impostos (os famigerados Quinto e Derrama que aprendemos no colégio), seja com o evidente favorecimento de portugueses dentro da carreira militar na Capitania de Minas Gerais.

O que o longa se propõe a fazer (e consegue) é demonstrar, de forma ficcionalizada, o que teria levado este homem, um sujeito comum, sem grandes ambições ou pretensões na vida, a se tornar o mártir da Inconfidência Mineira, um movimento formado pelas classes mais abastadas da sociedade mineira da época e que ocorreu exclusivamente porque essa galera gostava mesmo era de dinheiro, não por qualquer ideal de liberdade ou abolicionista.

Filmado quase que totalmente com a câmera na mão, a película tem um quê de modernosa, o que causa alguma estranheza diante dos cenários antigos, mas é um incômodo que logo é absorvido pelo espectador, em especial quando as (poucas) cenas estáticas, em ângulos abertos, provocam um excelente contraponto visual às demais.

Há de se destacar também a ótima direção de atores. À exceção do elenco português, um tanto caricato demais como gente privilegiada e escrota, as cenas entre Joaquim e seus asseclas, Januário (Rômulo Braga) e o escravo João (Welket Bungué), são sempre atuadas de forma, no mínimo, competente, com destaque para uma espécie de rap pataxó-yorubá rudimentar cantado por um índio e por João.

O que o longa talvez não tenha pretendido fazer, mas acaba por fazê-lo de forma possivelmente inadvertida, é traçar um paralelo evidente entre o Joaquim (esqueça Tiradentes) e nós. Eu e você. Pessoas normais, que almejam coisas normais. Mas que são diariamente lembradas de toda a corrupção e putrefação que as impede sequer de fazer isso. Gente que é jogada uma contra outra e é usada como massa de manobra, seja pela sigla que tem o poder, seja pela outra que o quer.

Hoje, como antes, almejamos a liberdade de tudo isso. Ainda que tardia.

Sugestões para você: