Ao sentar meu rabicó no cinema para assistir a John Wick: Um Novo Dia para Matar, eu me comprometi comigo mesmo a contar o número de pessoas que morrem no filme. Pensei até mesmo em fazer duas listas: uma com o número de pessoas que morrem pelas mãos de John Wick (Keanu Reeves) e outra das pessoas mortas por terceiros. Logo ali pelo minuto 10 eu perdi a conta. Ao final do filme, contudo, eu pude constatar que, à exceção de dois sujeitos em uma cena no metrô, absolutamente TODO MUNDO morre por ação direta do protagonista.

Felizmente, a internet é um lugar mágico e algum desocupado não só teve o trabalho de contar quantas pessoas John Wick mata, mas também de compilar isso em um gráfico que só pode ser adjetivado como fuderoso. São 128 mortes confirmadas em um filme com 130 mortes.

Em 2014, Hollywood jogou vinte milhões de dólares (uma mixaria para os padrões) no colo de Chad Stahelski, um sujeito que havia ficado amigo de Keanu Reeves 15 anos antes quando foi dublê de Neo em Matrix e nos filmes seguintes. Chad prometera conseguir Keanu Reeves para estrelar um filme de ação cuja premissa era simples: um matador profissional aposentado tem seu carro roubado por Theon Greyjoy, que, não satisfeito, mata também seu cachorrinho que havia sido um presente de despedida de sua esposa que acabara de morrer de câncer, desencadeando, então, o justo extermínio de 77 pessoas, número este mais uma vez brilhantemente ilustrado por um gráfico (obrigado, internet!).

Este John Wick 2 é uma continuação direta daquele filme, com sua primeira cena sendo até mesmo um acerto de contas (estrelado pelo sempre ótimo Peter Stormare) do que acontecera ao final do filme anterior. Não há, contudo, necessidade de se ter visto o filme anterior porque, como você já pode imaginar, não é pelo roteiro que as pessoas vão ao cinema ver um filme onde um sujeito sozinho mata 128 pessoas.

Neste novo filme, John Wick já está com um novo cachorro (indiscutivelmente o personagem mais adorável do longa) e recebe uma visita de um velho conhecido, que veio cobrar uma dívida antiga. 

O melhor personagem do filme brinca com John Wick

É aqui que John Wick se diferencia dos demais filmes do gênero. O seu roteiro, assim como o do filme anterior, arranha a superfície de toda uma potencialmente fascinante mitologia do submundo, na qual uma organização ainda sem nome rege toda a atividade criminosa do planeta. Uma espécie de ONU para vagabundo, com suas próprias regras pétreas, sedes, tradições, limitações e cujos membros se vestem sempre na mais impecável estica.

Digo isso porque Santino (Riccardo Scamarcio) vem cobrar um “favor” na forma de uma promissória, assinada por John com seu próprio sangue anos antes. John se recusa. E as duas cenas seguintes deixam claro que essa recusa não pode acontecer. Mas, uma vez que a promissória tiver sido paga, John estará desobrigado de qualquer coisa e livre para fazer o que bem entender, inclusive chutar bundas. Só que, no caso, ele as chuta com tiros na cabeça.

Isso tudo é, como em todo bom filme de ação, uma desculpa para cenas de violência estilizada e coreografadas à perfeição. A beleza com que John Wick elimina seus oponentes um a um, invariavelmente a curta distância, é de um primor técnico muito superior a qualquer uma das coreografias meia boca de La La Land (ok, à exceção da primeira e mais inverossímil delas). Há uma cena de rara poesia, inclusive, quando – em um cenário que presta tributo inegável ao clássico de Bruce Lee, O Vôo do Dragão (Enter the Dragon) – John Wick, demonstrando ser uma criatura de inquebrantável foco e resiliência, revista, em busca de um novo pente para sua pistola, o corpo de uma pessoa cujo coração acaba de ser perfurado por uma faca e cuja vida vai lentamente deixando seu corpo.

Há lugar, ainda, para uma participação especial e quase gratuita de Laurence Fishburne, reeditando a parceria de sucesso entre Neo e Morpheus na série de filmes Matrix. Aqui, como lá, Neo é ajudado por Morpheus a alcançar seu destino. Coincidência?

“Do you believe in fate, Neo… errr, John?”

Depois do 89º jagunço morto, o espectador começa a ficar um pouco de saco cheio de tanta bala no coco e porrada. Este é um filme de 2 horas que poderia tranquilamente ter 20 minutos a menos (ou mais cenas com o cachorro).

No entanto, para o que se propõe a entregar, a película praticamente não comete erros. À exceção do ritmo do filme, que às vezes se torna sacal, e de umas duas lutas corpo a corpo um tanto forçadas, tudo aqui se encaixa perfeitamente e é crível dentro do universo que se criou. Não vai mudar em rigorosamente nada sua vida, mas é um excelente filme de ação, tecnicamente impecável e com um protagonista extremamente carismático, por mais inacreditável que seja o Keanu Reeves emplacar mais um personagem icônico e carismático usando sua mesma expressão de sempre.

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