Em seu clássico “O Erotismo”, Georges Bataille aponta o sexo como uma trilha para que nós, seres humanos, consigamos suportar a sensação de pequenez frente à grandeza universal. Já Freud, ao longo de toda sua teoria psicanalítica, mostra que as pulsões eróticas são o escudo da psique para se defender e vencer as pulsões tanáticas, de morte. É nessa pegada, de reconhecer o sexo como um dos pontos principais – e sem limites –  dos humanos, que se desenvolve Kiki: Os Segredos do Desejo, de Paco León, remake do filme australiano de 2014 “A Pequena Morte“, escrito e dirigido por Josh Lawson.

A narrativa se desenvolve através de cinco histórias entrelaçadas, que mostram personagens em busca de amor e realização afetivo-sexual, confrontados com as tortuosas vias que o desejo traça. O prazer chega através dos mais “estranhos” (as aspas entram aqui como uma dúvida: será que estranho ainda se aplica a nós, humanos, nesses tempos em que de tudo se vê?) fetiches. Há desde um homem que só se excita com sua esposa dormindo a uma mulher que arde de tesão quando o marido chora. Tudo isso abordado por uma direção leve, que explora o tema sem pedantismos ou desejo de grandeza. Talvez resida aí o maior trunfo do filme. Embora não arranque gargalhadas, ele põe risinhos cúmplices no rosto do espectador. Aliás, fico imaginando os altos papos no bar depois do cinema. Dica: veja em grupo.

Outro ponto alto são as atuações. Atores espanhóis possuem um modo muito marcante de representar, uma técnica que explora os limites da própria técnica, porque se mistura muito à paixão. É uma espécie de “improvisação ensaiada”, uma reflexão extremamente cerebral, mas que se disfarça através do calor que eles conseguem imprimir à tela. O jogo se completa quando grande parte do elenco, incluindo o próprio diretor, utiliza os próprios nomes como nomes das personagens. Elenco coeso, não há ninguém que se destaque mais que os outros o que, aqui, é uma virtude

O roteiro amarra bem as pontas, os diálogos são inteligentes, divertidos. O único deslize se dá num excesso de teatralidade que artificializa um pouco a materialização do filme. Até mesmo o recurso de colocar legendas com as definições dos fetiches das personagens, ao mesmo tempo em que cria humor e naturaliza as situações da história, acaba colaborando para sua artificialização estética. A própria cenografia e a direção de arte incorrem nesse pecadito: a influência almodovariana é clara nelas, mas, ao contrário do inspirador, elas não têm coragem de se jogar totalmente no kitsch, o que cria uma ambientação que, por diversas vezes, mostra-se tão pensada que “parece coisa de filme”.

Um destaque positivo vai para a fotografia de Kiko de la Rica . As cores explodem belas na tela, sensuais, sexuais. O início do filme, mesclando imagens de sexo entre animais e um casal humano na cama (não, pessoal, não transando juntos, não tem zoofilia na parada), imediatamente me remeteu à música de Adriana Calcanhoto: “cores de Almodóvar cores de Frida Khalo, cores, eu vejo tudo enquadrado”. É uma fotografia muito bem realizada. Pesquisando sobre de la Rica, descobre-se que ele também assinou a belíssima fotografia de “Lúcia e o Sexo, de 2001.

Este Kiki é um provocação cinematográfica leve, um filme bom para se discutir entre amigos ou – hmm – na cama. Mas seu grande mérito é fazer com que a imagem fílmica leve o espectador a um sentido maior: o da imaginação. Pois, como disse o filósofo Spinoza “quando a alma contempla os corpos por esse processo diremos que imagina”.

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