Nunca fui fã do ano novo. Desde pequeno considerei uma convenção social estúpida. Honestamente esperava algo novo , um céu verde musgo ou nuvens vermelho fosco. Qualquer coisa que pudesse mostrar que aquele ano havia ido embora e um novo, completamente diferente, começado. O céu nunca ficou verde musgo e as nuvens são brancas até hoje, o máximo que acontece no começo do dia 1º de Janeiro são as pessoas que ficam muito “felizes” subitamente e dançam Y.M.C.A.

Porém, na aurora de minha vida, havia algo que compensava a desilusão do ano novo. Meu pai levava todo mundo para búzios e todos nos dirigíamos no dia 31 para a festa de seu chefe, que mais parecia uma clínica de Botox do que qualquer outra coisa. A festa era um porre, os dois beijinhos que eu era obrigado a dar naquelas senhoras eufóricas e meio mortas até hoje ainda me causam pesadelos. Entretanto a casa do  chefe do meu pai tinha um cinema. SIM, UM CINEMA!  E no ano novo eu e minha irmã tínhamos autorização para nos refugiarmos nesse singular e espetacular cômodo (claro que só depois da sessão de cumprimentos). Havia, contudo, um problema, minha irmã e eu temos gostos cinematográficos muito diferentes desde sempre e só haviam dois filmes na casa que a censura paterna nos permitia ver: King Kong  ou Expresso Polar. Minha irmã amava Expresso Polar, em contrapartida eu queria porque queria ver o rei dos primatas mesmo que aquilo me consumisse 3 horas e pouquinho (Peter Jackson e seus filmes longos). Vi o Expresso Polar pelo menos 6x enquanto King Kong umas 3x no máximo, minha irmã era a rainha da birra. Todavia, todas as vezes que vi a película do gorila gigante da Ilha Da Caveira foram memoráveis, por vencer minha irmã e por ver um filme com um macaco gigante caindo na porrada.

O rei do meu “ano novo”

Atualmente passo meus réveillons no quarto, com meu cachorro, jogando meus games favoritos. Algumas vezes Zelda outras vezes Metal Gear Solid. Alheio a todo o ufanismo e entusiasmo que tanto detesto.

Ouvi falar de Kong : Ilha da Caveira por entrevistas de seu diretor que dizia apostar numa mistura de Apocalypse Now e clássicos dos games como Shadow of the Colosus e Metal Gear Solid. Tudo isso em um filme com um macaco gigante. Eu julguei ambicioso demais, pretensioso demais, simplesmente não imaginava esse filme acontecendo. Além do mais, quantos filmes tentaram sem sucesso trazer a imersão dos games para as telonas?

Dia 9 de Março de 2017 foi o dia que assisti um filme que finalmente consegue transpor para a tela grande a estética e sentimento de um videogame, prestando diversas homenagens a essa mídia. Sem contar as brilhantes referências  à cultura japonesa e o mesmo macaco épico que sempre me fez sorrir. Com uma fotografia capaz de deixar qualquer um deslumbrado, uma trilha sonora que conta com Bowie e Black Sabbath e uma direção que parece feita pelo mestre dos games, Hideo Kojima, o novo filme da Legendary é um dos melhores filmes pipoca em muito tempo, porque não tem vergonha de ser  pipoca, porém não deixa de lado a ambição.

Tem como ficar mais japonês do que com tentáculos?

Não espere um filme elaborado, cheio de personagens bem construídos, Kong é clássico em sua narrativa: Expedição que junta explorador, cientistas , fotógrafa e militares vão até uma ilha remota para explorá-la e terminam por se deparar com o primata que domina a ilha. Apesar de haver alguns personagens diferentes, o destaque vai para o de John C. Reilly. A aposta está num visual nunca visto nos cinema e uma megalomania digna de Dragon Ball. Destilando videogame, a película  não tem medo de ser descaradamente geek, sem se levar a sério e homenageando tudo que formou gerações e gerações de neo nerds. Dos  figurinos  até as katanas, o diretor Jordan Vogt-Roberts entrega sinceridade, carisma e referências. Finalmente a geração que cresceu com jogos como Metal Gear Solid, Shadow of the Colosus e Uncharted chegou aos cinemas. Mas sem se esquecer do sentimento dos clássicos filmes pipoca. Sobra sensação Spielbergiana em suas 2 horas, que tem homenagem a Goonies na maneira como os soldados se relacionam e Jurrasic Park com répteis assustadores.

Samuel L Jackson sendo Samuel L Jackson num vilão simples, mas forte, Tom Hiddleston numa versão de Nathan Drake (Indiana Jones dos games, protagonista de Uncharted) e Brie Larson interpretando uma Lara Croft fotógrafa (Indiana Jones feminina dos games), Kong conquista com sua simplicidade e modernidade. Até se ensaia um pouco mais de rebuscamento, com uma pegada mais Lovecraftiana e militarizada, todavia a obra sempre mantém os pés no chão e se propõe a entreter.

Uncharted ou Tomb Raider? Kong!

E, caceta, como entretém.

Sobraram momentos em que olhei para meu camarada, na poltrona ao lado, Kid Bicalhos – formado por games e animes assim como eu – e vibramos juntos. Porque o filme queria nos proporcionar isso, ele se entende como uma película de monstros, de nerd para nerds, nada de relações humanas complexas (Godzilla, estou falando de você), temos aqui criaturas com designs memoráveis se matando e morrendo em cenas ainda mais  memoráveis. Planos detalhes pipocam na tela, humor em tempo perfeito e fan service na medida certa fazem de Kong emocionante para todos que esperaram há tanto tempo para sentir o impacto de novas obras, mídias e formas chegando ao cinema pipoca de Hollywood.

Graças a Jordan Vogt-Roberts, já sei o que farei nesse réveillon, e não há expresso polar que vá me impedir.

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