Se o musical é mesmo o único gênero cinematográfico clássico originalmente criado nos EUA, então La La Land (indicado a 14 Oscar, inclusive o de Melhor Filme) talvez seja o filme com música e dança que melhor traduziu aquele conceito-chave que molda a América: o Sonho Americano. Nesse caso, o brilhantismo da obra de Damien Chazelle (indicado ao Oscar de Melhor diretor por esse filme) reside justamente em ilustrar as notáveis oposições no centro desse conceito: ilusão e realidade, sucesso e fracasso, cotidiano e fantasia, individualismo e altruísmo e, até mesmo, passado e futuro.

Essa dualidade se faz presente no próprio título do filme que remete a um lugar real específico (L.A. – Los Angeles) ao mesmo tempo que ilustra o local do imaginário (“La La Land” – a terra do faz de conta). Afinal, como todo mundo que assistiu Cidade dos Sonhos sabe (já houve melhor tradução de título em português para um filme?), Los Angeles é o território onde a própria identidade também se torna ficção. É nesse lugar entre o factual e o possível que Sebastian e Mia vão se apaixonar.

A própria relação que se desenrola entre os dois protagonistas exemplifica as oposições profundas com as quais Chazelle vai lidar com maestria: Sebastian (Ryan Gosling, indicado ao Oscar de Melhor Ator por esse filme), com seu nome longo e consonantal, observa o mundo pela lente da nostalgia e se vê como um salvador do jazz, que no seu ponto de vista, “está morrendo”; Mia (Emma Stone, indicada ao Oscar de Melhor Atriz por esse filme), com seu nome curto e vocálico, pensa constantemente no futuro, quando vai deixar de ser garçonete e finalmente se tornar uma grande atriz. Quando eles se conhecem, é na mais banal das situações – um desentendimento de trânsito. Em vinte minutos de filme, já estarão dançando e cantando juntos.

Mia, Seb e seu sonho

Todo grande filme musical, de Nasce Uma Estrela a Moulin Rouge, é uma obra sobre obsessão. No caso de La La Land, a obsessão dos personagens (ele com o passado, ela com o futuro) transborda para o enredo e o estilo visual do filme, onde a modernidade narrativa está fortemente aliada à nostalgia do Era de Ouro do cinema. Chazelle usa suas referências de forma engenhosa e com propósitos variados: os musicais de Jacques Demy, por exemplo, servem como inspiração para sequências inteiras e para a adorável palheta de cores; Juventude Transviada e Casablanca constituem elementos narrativos que determinam as ações dos personagens; e Cinderela em Paris, O Balão Vermelho, entre vários outros, servem como deliciosas citações visuais que são quase easter eggs.

Chazelle, porém, nunca perde o foco em relação ao romance de Sebastian e Mia, desde seus divertidos números de dança (bem longe da maestria de Ginger & Fred, mas nem por isso menos envolventes) até os momentos de frustração e conflito, como a espetacular cena do jantar (seria aquela a mesma luz verde que iluminou James Stewart em Um Corpo que Cai?). É o contraponto entre a delícia de um amor quase juvenil e a dor de uma realidade que demanda amadurecimento que torna La La Land uma experiência essencialmente agridoce. Até mesmo as sequências mais vibrantes deixam vislumbrar uma certa melancolia – afinal de contas, todas aquelas pessoas que cantam e dançam alegremente na cena inicial voltam a ficar paradas buzinando em um engarrafamento logo depois.

O ápice de La La Land, e que associa o filme definitivamente à temática do Sonho Americano, é a cena do “balé de sonhos” que compõe os minutos finais do filme. O “balé de sonhos” consiste em uma das mais notáveis convenções do filme musical: trata-se de uma sequência de música e dança em que os personagens remetem aos principais temas do enredo de forma alternativa e altamente simbólica (o melhor exemplo de “balé de sonhos” permanece o segmento “Broadway Melody” de Cantando na Chuva). Em La La Land, ao dedicar um longo final paralelo para a história de amor do casal protagonista, Chazelle – utilizando de diferentes linguagens visuais, do teatro de sombras ao home video – demonstra que, para alcançar seus sonhos, os personagens têm de tomar decisões bem reais. O sucesso na América exige trabalho duro e auto-confiança, mas também um grau de individualismo que a narrativa ilusória de um musical talvez não comporte – daí a necessidade da engenhosa cena do “balé de sonhos”.

A dança dos sonhos

Se a cultura de massa dos EUA nos bombardeia a todo momento com a mensagem “acredite em si mesmo”, La La Land pergunta: mas quais as consequências? Ryan Gosling (engraçado, mas contido) e Emma Stone (sonhadora, mas vivaz) têm de, por meio de suas carismáticas atuações, lidar com esse questionamento até o minuto final do filme, que chega a problematizar a própria noção de final feliz.

Em meio a figurinos coloridos, imagens de cartão postal e um mar de referências, La La Land arquiteta um mundo onde decisões maduras dão o tom. O adorável relacionamento de Sebastian e Mia faz sorrir (quase) o filme inteiro, mas no meio de idas e vindas amorosas há uma história tocante de arrependimento, escolhas difíceis, e as distâncias a trilhar para se alcançar a felicidade.

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