Algum tempo atrás, um sábio profeta e filósofo brasileiro vociferou em rede nacional pela primeira vez a máxima que nos acompanha desde então e define a própria existência tupiniquim dentro do contexto geopolítico da América do Sul:

Ganhar é bom, mas ganhar da Argentina, amigo, é muuuuuito melhor!!!!” Bueno, Galvão.

Esta máxima – e sua variação “Ganhar da Argentina é bom até no par ou ímpar!” – dá a tônica do que é La Vingança, comédia nacional que, surpreendentemente, não é estrelada pelo Leandro Hassum, não é uma versão longa metragem do Zorra Total e também não cumpre a cota de peitinho de qualquer produção nacional sem classificação livre.

Antes de começar a falar do filme, eu queria dizer que, durante uma excursão escolar no 2º ano do ensino médio, eu descobri que tinha uma dificuldade enorme para diferenciar as profissões do dublê e do guia. Eu descobri isso porque, por alguma razão, minha cabeça de maconheiro que nunca tinha fumado maconha só se referia ao guia como dublê. Era como se a palavra e o significado de guia ou guia turístico não existisse e fosse totalmente substituída pela palavra dublê. Após muita terapia, jejum e eletrochoque, hoje eu entendo a diferença e consigo vocalizá-la, mas não sem sentir um certo desconforto. Porque eu estou falando disso?

Vadão, Jorge e Caco.

Ora, Caco (Felipe Rocha) e (que nome fantástico!) Vadão (Daniel Furlan) são dois dublês (o que me causou algum incômodo por causa da razão supracitada)! Caco é um romântico inveterado, apaixonado por sua namorada, Julia (Leandra Leal) e Vadão é um putanheiro de marca maior, que aparentemente tem como objetivo de vida comer todo mundo, no que faz ele muito bem.

Um belo dia, após receber a temida mensagem de “precisamos conversar” de Julia, Caco pensa em surpreendê-la em seu trabalho, onde Julia é sous chef de um renomado chef argentino, Facundo (Adrián Navarro).  Lá chegando, Caco, com flores na mão, pega Facundo, digamos, passando Julia na parrilla, degustando a empanada dela, assando-lhe os chinchulines na brasa e eu vou parar com as metáforas gastronômicas argentinas para sexo por aqui.

A dor de Caco é feita maior quando, ao contar para Vadão que Julia estava dando para um argentino, ele exclama, em um berro de fazer inveja ao mítico Galvão Bueno em 94, “Prum argentino?!?!?!?!?!”. Caco, levando os ensinamentos de Galvão à risca, se dói ainda mais pelo fato do cara ser um argentino, em especial quando estamos falando aqui de um argentino daqueles de almanaque, um sujeito com barba por fazer, cara de sujo, cabelo comprido em um extravagante mullet, extremamente arrogante e gatíssimo.

En la bueca de la botilla

Caco, então, totalmente influenciado por Vadão, embarca em um plano mirabolante que envolve dirigir Jorge, o belíssimo Opala 72 de Vadão (naquela que deve ter sido a road trip mais cara da história, já que este carro faz 4 km com um litro de gasolina) até Buenos Aires para que Caco possa ter sua vingança, que, no caso, não envolve matar Facundo ou Julia, mas comer todas as argentinas possíveis e imagináveis.

Esse é o mote do filme e é aqui que o longa de Fernando Fraiha acerta. Apesar de ser um tema que, à exemplo dos muitos road movies americanos no qual se espelha, praticamente implora por piadas apelativas, sexistas, tetas e diversas expressões diferentes para se referir a sexo, La Vingança passa ao largo disso, conseguindo, no bom roteiro de Jiddu Pinheiro, ser engraçado sem apelar, mesmo quando as situações gritavam para que um cara como Vadão fosse escrotíssimo.

Que homem!

Vadão (e seu opala Jorge) é o ponto alto do filme. Se o Caco de Felipe Rocha está correto como o corno meio manso, meio abobado, meio romântico, Daniel Furlan achou o tom perfeito para Vadão, dando a impressão até mesmo de que metade dos tiros da metralhadora de merda que é a sua boca foi improvisada. Eu já havia visto Daniel Furlan antes no canal de YouTube TV Quase, no quadro Falha de Cobertura, onde ele e um outro caboclo comentam de forma hilariante o futebol brasileiro e só fui reconhecê-lo após os créditos e uma rápida busca na Wikipédia.

No mais, a película cumpre bem seu papel, transformando-se de um filme com algum viés romântico em uma grande celebração da amizade e do velho chavão de se viver a vida ao máximo, em especial se isso significa ganhar da Argentina. Aí, amigo, é MUITO mais gostoso…

 

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