Quinta-feira, 16/02/2017, Rio de Janeiro, Brasil. 14:10 numa tarde quente de verão carioca, suando profusamente, me encaminho para o cinema ao lado do meu grande amigo e escritor do Metafictions, Gustavo David. Nossa missão consistia em assistir três filmes em três cinemas diferentes na Zona Sul carioca. Começaríamos com Lion na Gávea, na sequência, no bairro da Lagoa, assistiríamos o John Wick (cuja crítica foi feita pelo Gustavo) e finalizaríamos no bairro de Botafogo com Minha Vida de Abobrinha. Diria que é a sequência perfeita de filmes. Primeiro com um filme denso indicado ao Oscar de Melhor Filme do Ano, passando para a virilidade descompromissada com roteiros elaborados e cenas emotivas, chegando ao fim do dia com uma bela animação relaxante em que nada acontece, como todo típico filme francês.

Lion: Uma Jornada Para Casa é um filme digno de indicação ao Oscar. Sua premissa parte de um jovem menino indiano, Saroo (Dev Patel), que se perde em uma estação de trem e acaba em Calcutá, extremamente longe de sua casa (2 dias de viagem nesse trem) e sem saber como e que direção tomar para voltar. Saroo passa por inúmeras adversidades, mostrando um lado negro da sociedade indiana (ou de qualquer país emergente), até que é adotado por um casal australiano. Anos depois, em seu novo lar, ele resolve procurar sua mãe, irmã e irmão (a quem era muito apegado). Começa sua saga para achar a cidade na Índia a partir de mapas e do Google Earth.

“Uau… um coala… pera, como eu sei disso?”

Muitas angústias são transmitidas por esse filme. A mais evidente para mim, como professor de geografia, é o enorme contraste entre inúmeras características sociais e físicas entre as duas nações; a vegetação preservada e exuberante na Oceania em contraste com a ausência da vegetação,  os solos desgastados e o pasto na Índia. Mais chocantes são as diferenças sociais. Pessoas tentando se aproveitar de uma jovem criança de 5, 6 anos de idade. Isso não é novidade para mim, já que ensino sobre esses países, mas ter essa diferença exposta de forma tão crua foi marcante. O ápice dessa dicotomia ocorreu muito depois que acabou o filme, quando assisti à animação franco suíça que se passava em um orfanato (ao que parece na França… mas poderia ser na Suíça). O carinho e a dedicação prestados aos poucos meninos nesse lugar quase chegava a me ofender perto do prestado ao “depósito de crianças menores de idade indianos.”

Sua cara quando pensa em quantas estações de trem a Índia possui.

Todo o longa é marcado por esse conflito visual de oportunidades e emocional dos personagens. Dev Patel (indicado ao Oscar por melhor coadjuvante) é desmontado pedaço por pedaço na sua culpa (já que ele foi o responsável pela separação), angústia e saudades de seus familiares. Isso me deixou questionando: o que é mais importante? Saber onde você pertence no mundo? Ou onde você está? Ou de onde você veio?

Talvez o único problema da película, se é que posso falar isso, é a sua linearidade. Raros são os flashbacks (contrariando o que o trailer deu a entender) e seguimos com o Saroo da sua infância até seus vinte e poucos anos.

É… borboletas.

Chegando ao seu momento de desfecho, eu só conseguia pensar na minha mãe e o quanto eu morreria por dentro imaginando-a me procurando por anos a fio. A essa altura eu me debulhava em lágrimas e esperava olhar para lado e ver o Gustavo com aquele sorrisinho “choraaaaando… né?”… mas não, Gustavo, o viril, estava enxugando suas próprias lágrimas. Ok, Lion, missão cumprida.

Mãe, te amo!

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