“No princípio era o verbo. “

Gosto de pensar que o tal verbo era o cuspir.

Porque cuspo.

Cuspo demais.

Culpa de uma língua oscilante entre a verborragia e o caos. Uma fonoaudióloga abandonada em uma sala de paredes avermelhadas e 7belos mofadas. Sobretudo da raiva. Borbulhante, inflamada, escorrendo doce das artérias até os perdigotos. E de todas essas cusparadas, atiradas, seja em discussões ensandecidas ou risadas maltrapidas, nenhuma é tão forte, nenhuma é tão oca e intransigente quanto as dirigidas a fachada opaca, de um branco desbotado, da Igreja Nossa Senhora da Paz. Sinto uma suave satisfação ao ouvir as senhorinhas saindo da missa me chamando de “marginal “ e os mendigos recolhidos e entorpecidos, aplaudindo, sem a menor noção.

A mistura dessa saliva é repulsiva, porque é permeada pelo medo do que eu um dia acreditei. Lembro como se fosse hoje, aquela tarde de dezembro, numa capela do Leblon, quando com o coração espesso abraçava minha carola mãe, afirmando ter visto Jesus em meu coração. Com o passar dos anos ele foi minguando e eu pensava que meu suposto salvador fosse como a Lua, por vezes diminui, porém, sempre retornaria para a redenção. Fato é que nunca mais o vi, foi sendo demolido por uns nomes alemães difíceis, palavras pessimistas e uma filosofia de total libertação. Nas noites de outono, bem tarde da noite, gosto de inventar seus sussurros e imaginar sua silhueta pairada ali ao meu lado.

“Thomaz, Thomaz, por que me persegues? “

Isso nem na minha imaginação ele pergunta, todavia faço questão de responder a hipotética pergunta com cusparadas, logo onde meus joelhos debruçavam as 6:00 da manhã. A crueldade da religião é nos fisgar com a ilusão da esperança, com o delírio da ressurreição, somos deixados como violinistas à beira do abismo, crendo até o fim que as estalactites caindo são anjos do senhor. Deixei-me deixei enganar, ser tocado pela música sacra de Bach e por isso jamais vou me perdoar. Conservei em mim, por muito tempo a fé num mundo melhor, longe daqui, onde São Pedro me chamaria e deus me daria a mão. Apenas para perceber anos depois que essa janela embaçada de nicotina é tudo que resta e ela está a encolher. A cada dia a paisagem é mais oblíqua, as árvores mais tortas e as senhorinhas deixando a missa mais numerosas. O pecado é inevitável, tal qual a busca enferma pelo perdão.

“Por que o sol continua a brilhar?”

Assim como eu, Darren Aronofsky cuspiu. Sua cusparada não gerou aplauso de mendigos ou gritos de “marginal”, não sujou a fachada da humilde Nossa Senhora da Paz, mas dividiu a crítica internacional. Nascido a partir da revolta do artista e também ambientalista Aronofsky com as políticas de seu país, Mãe! é raiva, pura e torta, uma película megalomaníaca que busca condensar em suas 2 horas toda a dor da tragédia, repetida a exaustiva, dessa espécie náufraga de só um pecado: a  fé que condena a auto destruição.

Com o niilismo cru de “Réquiem Para um Sonho ”, câmera fluida de “O Lutador ” (filme analisado pelo nosso Assista! da semana), atuações nível “Cisne Negro” e a palheta de cores de “Fonte da Vida”, num mistão de si mesmo, aliado a um suspense digno de “O Iluminado” e o surrealismo sufocante de “O Anjo Exterminador”, o alquimista/diretor cunha um perdigoto sagrado, um dos trabalhos mais pertinentes, simbólicos e polêmicos de nossa geração.

“Por que o mar se apressa em chegar à praia?”

A narrativa de um escritor recluso e sua mulher dedicada na construção de um habitat propício à inspiração serve apenas como pretexto para Aranofsky se apossar de uma metáfora poderosa, no intuito de ilustrar a degradação. Tudo temperado com a fotografia entregue ao contraste entre o cinza e o amarelo para esmiuçar a doença e corrupção.  Em seu primeiro ato, a obra reluta, mas já incomoda. No segundo ato, retorce. Por fim estilhaça, não deixando uma pobre alma livre de um choque eletromagnético e provocador.

Jennifer Lawrence é o epicentro da explosão, sendo o solo perfeito para os frutos proibidos de Darren. Diferente do que ocorre nas comédias bobas de David O. Russell, a vencedora do Oscar não fica restrita a uma gama de gestos melodramáticos e oscilações de voz. Ela reage, perturba e conduz. Javier Bardem responde na mesma medida, em tom compassivo, dando a sua persona ares misericordiosos e mesquinhos de um deus que não existe sem a própria escravidão.

Diversos espectadores deixarão as salas de Mãe! frustrados. Reclamando do esoterismo e simbolismo despejado pelo roteiro. O marketing errôneo dizendo que era terror. Acima de tudo, reclamaram da pretensão. Entendo, a película não é para agora, será execrada e ignorada, demoraremos anos e mais anos para entender os signos de Aronosfky enterrados por ali. Mas em um futuro não muito distante reconheceremos a beleza e ousadia com que o artista retrata as cinzas de nossa espécie e civilização. Trabalhos como esse são os que ficam, seus cacos de vidro são tão sinceros e corajosos que o vento se recusa a transportá-los e eles esperam por nós.

“Eles não sabem que é o fim do mundo?”

Cheguei a Estação Ipanema, minha única e última pátria, respirando fundo, com passadas largas. Entrei no cinema e abri os braços. Terminei de joelhos, aplaudindo solitário, com as lágrimas ecoando pelas bochechas rosadas. Em 2 horas estava contada a mais triste das histórias. Com o uso de apenas uma casa, Aronofsky foi capaz de esmiuçar a melancolia de Meca até Canaã. O vício de preencher, a insistência em existir e se convencer com sussurros noturnos que no céu tudo é perfeito, enquanto convertemos o que temos no nosso inferno particular. Seguindo falsos profetas e banhando-nos em seu sangue, traçamos nosso caminho de horror.

Saí bufando, berrando, de braços erguidos tal qual um vencedor, porque no fim o espelho havia refletido e a catarse havia chegado. Era arte, era arte. Caminhava, observando os postes e as mariposas queimando nas entranhas de suas lâmpadas. Até chegar aquela fachada de um branco desbotado e cuspir. Secando minha garganta pelo desejo profano da saliva corroer os santos de mármore, queimar as algemas e dissolver nossas esperanças. Fazendo de tudo cinzas e pó. Deixar o verde fluir, e me libertar de mim e de nós, Eva, Caim, Abel e Adão.  Nesta tarde não ouvi os aplausos ou os gritos de “marginal”. Escutei apenas o vento sibilar:

“Thomaz, Thomaz por que me persegues? “

E foi aí que percebi que ainda não somos dignos,  nem do fim, nem de nossas mães.

 

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