Alguma vez você já sentiu que as coisas ao redor parecem fora de eixo? Que você não se enquadra onde está? Já sentiu, em algum momento, uma vontade incontrolável de fazer tudo diferente, de experimentar uma transformação de si e dos outros? Em algum tempo, se sentiu como um gorila paralisado em uma jaula, sem a menor possibilidade de fazer o que nunca fez; em uma solitária com sentença pelo tempo de vida? Alguma vez, você já sentiu tudo isso e… permaneceu exatamente como sempre esteve, nesse eterno déjà-vu?

Philippe Mars (François Damiens) parece se enquadrar no parágrafo que nos descreve. O pai de família é um correto cidadão, que vai para o trabalho, cuida dos filhos em seus dias de guarda compartilhada e é gentil nos esporádicos encontros ácidos (por parte dela) com a ex-mulher. É aquele tipo resignado com sua condição atual. É o tipo comum de cidadão pelo mundo afora. Como se estivesse tentando viajar pelo espaço, na insustentável leveza da ausência de gravidade, ele percorre os seus dias, não arranjando conflito com qualquer coisa que seja, porém sabedor de que uma inesperada poeira cósmica pode transformar seu espaço sideral interior, lento e insosso, em um furacão de bizarrices.

Orbitando em meio ao caos.

Mars é obrigado a andar na corda bamba das relações sociais, sejam elas no trabalho (com os pedidos intempestivos do chefe) ou em casa. Ele deve dar conta de dois filhos extremamente diferentes entre si, em suas personalidades. Grégoire (Tom Rivoire), o mais novo, é um daqueles ativistas que se torna vegano, defendendo os animais dos abusos cometidos pelo homem; é o típico extremista que não tem a menor idéia do que está falando, que levanta bandeiras, sem nem saber efetivamente o que elas significam (ring a bell? Pois é, quase todo mundo que a gente conhece, não?). E Sarah (Jeanne Guittet), 17 anos, a neoliberal empreendedora a qualquer custo, que vislumbra até em situações banais uma forma de ganhar dinheiro. “Estou me sacrificando agora para, no futuro, ter um bom salário e escolher o que quero fazer e não ser um loser como você”, agride ela o próprio pai, ao justificar seu intenso foco nos estudos. Philippe tenta se equilibrar naquele fio da navalha, que balança inconstante devido aos conflitos de geração.

Tudo que já parecia ruir, desmorona tão facilmente quando um “colega” de trabalho tem um acesso psicótico (ou algo que o valha) e busca em sua casa – antes o seu templo de tranquilidades – o refúgio necessário. É quando toda aquela leveza se torna insustentável, como se o espaço sideral o sugasse para um buraco negro não percebido até então. O filme, até aqui, parecia ser uma comédia de conflitos de gerações com uma pitada de After Hours (dirigido por Martin Scorsese, no qual o protagonista, que só queria sair com uma mulher, vai sendo atropelado por uma bola de neve de situações grotescas, impedindo-o de sair daquele movimento circular e infinito). Porém, assim como o seu personagem coadjuvante – o maluco Jérôme (Vincent Macaigne) – o longa despiroca por completo, se torna uma sucessão de acontecimentos esquizofrênicos que mudam boa parte daquilo que estávamos vendo.

Despirocando geral.

Tipicamente francês, apesar do diretor Dominik Moll ser alemão, contando com elementos narrativos para tornar a história um pouco mais interessante, Más Notícias para o Sr. Mars começa como um filme que constrói um tipo de enredo, mas que se perde, criando um terceiro ato e uma conclusão que destoam por completo daquilo que ele estava estruturando. A impressão que dá é que nos tornamos esquizofrênicos junto com aquele coadjuvante. Mas isso não foi uma solução de linguagem, como tantos filmes fazem brilhantemente. Algo ali faltou, fazendo parecer que uma pessoa começou a escrever o roteiro e outra, aleatória, o continuou.

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