Antes de mais nada, um mea culpa. Caro leitor, rogo por teu perdão. Por alguns finais de semana abandonei a ribalta do Metagames, deixando meu colega, mestre, mentor e amigo Ryan Fields solitário, a proferir sílabas mortas vivas sobre games por todos os finais de semana sem companhia ou amparo, sobrecarregado. Todavia, esses tempos chegaram ao fim, e, tal qual um filho pródigo, retorno ao quadro que inaugurei ainda no começo do ano. Sinceramente, espero que me aceitem de volta!

Entre labirintos empoeirados e painéis de aço, um misterioso universo vai ganhando contornos. Cada vez mais enfumaçado e denso, um mundo pavimentado por estátuas e permeado por uma natureza divina, que como qualquer resquício de divindade é por si mesma, absurda, vai ganhando forma cercado por água.

“Tu tens um nobre ideal em vista: mas serás tu próprio feito de uma pedra suficientemente nobre para poder dela tirar a estátua do teu deus?” Nietzsche

Essa é uma das milhões de maneiras de sumarizar The Witness. Poderia mudar a ordem, adicionar detalhes aqui e ali, mas o quadro desenhado não ficaria menos decrépito. E a culpa não é minha e sim de Jonatan Blow (sim, o mesmo do esotérico e já falado aqui Braid). Dessa vez o ousado game-designer não fez concessão nenhuma. Criou um mundo inteiro, de florestas, selvas, montanhas, cavernas, casas na árvore e cabanas, mas nada tem motivo, nada tem um porquê.

Você é jogado nesse contexto tal qual um recém-nascido é expurgado pelo útero materno: sem receber diretrizes, tutoriais e muito menos escola. O que você recebe é uma linda ilha navegável a partir de painéis. É justamente nesse elemento que o jogo mostra suas garras e arranha os olhos do jogador, deixando crescer piscinas sangrentas. Nestes painéis temos puzzles de todo tipo que variam com a localização, estágio e, acima de tudo, com sua maneira de vê-los. Sons, observação, contemplação e até mesmo o desespero são ferramentas necessárias para desbravar os exaustivos e árduos quebras cabeças. Sendo o último dos listados, o mais comum. The Witness faz você querer arrancar os cabelos, esmagar as orelhas e estilhaçar a mente, mas quando a resolução vem, o orgasmo compensa tudo. A sensação de conquista e vitória são tão perfeitas quanto passageiras, porque sempre mais painéis aguardam sorrateiramente na espreita.

Painéis minha paixão, minha perdição

No fim, o mais novo videogame de Jonathan Blow pode te deixar frustrado, encabulado, embasbacado e com a cabeça confusa, com a ignóbil indagação “ por que passei tanto tempo nesse jogo que não me diz nada ?” É justamente nisso que reside o grande trunfo de The Witness. O game, como toda boa peça de arte, revela mais sobre você do que sobre si mesmo. Não promete diversão, tem um roteiro impecável, direção de arte surreal, e, sim, uma inesquecível experiência de autoconhecimento.  Quanto a isso posso testemunhar.

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