“No interior da caverna permanecem seres humanos, que nasceram e cresceram ali. Ficam de costas para a entrada, acorrentados, sem poder mover-se, forçados a olhar somente a parede do fundo da caverna, sem se poder ver uns aos outros ou a si próprios. Atrás dos prisioneiros há uma fogueira, separada deles por uma parede baixa, por detrás da qual passam pessoas carregando objetos que representam “homens e outras coisas viventes”. As pessoas caminham por detrás da parede de modo que os seus corpos não projetam sombras, mas sim os objetos que carregam. Os prisioneiros não podem ver o que se passa atrás deles, e veem apenas as sombras que são projetadas na parede em frente a eles. Pelas paredes da caverna também ecoam os sons que vêm de fora, de modo que os prisioneiros, associando-os, com certa razão, às sombras, pensam ser eles as falas das mesmas. Desse modo, os prisioneiros julgam que essas sombras sejam a realidade”

A Alegoria da Caverna de Platão é provavelmente um dos conceitos filosóficos mais explorados mundo afora. Já nos concedeu obras primas como Matrix, animações e aulas de sociologia e  filosofia memoráveis. Todavia a ideia que nossa própria realidade – a própria maneira como encaramos nossos arredores – está errada é de difícil concepção. Ouso dizer que nenhuma obra, nenhuma aula, nenhuma forma de expressão humana captou tão bem as ideias de Platão no sétimo livro da República quanto Fez. 

Desenvolvido pelo polêmico Phil Fish, o jogo demorou anos para ser finalizado, gerou ameaças de morte a seu criador e diversos processos na justiça. Entretanto, o que emergiu da mente de Fish é uma obra prima muito à frente do seu tempo. Com seus cenários, trilha sonora sutil e natureza vibrante, Fez merece ser analisado e exaltado por muitos e muitos anos. 

A premissa é simples, Gomez vive num mundo bidimensional até que se depara com um cubo e logo em seguida recebe o chapéu que dá nome ao jogo, porém não se trata de uma simples vestimenta, o Fez permite a Gomez ver tudo em três dimensões. O cubo se parte em 64 pedaços e seu objetivo agora é reuni-los, o que jogador faz ao resolver puzzles intrigantes e se deslocando por terras esfíngicas, cabalísticas e profundas.

Fez é uma jornada de auto descobrimento. É necessário analisar cuidadosamente cada centímetro por diferentes perspectivas para alcançar os pedaços do cubo. Com sua sensibilidade pulsante e direção de arte refinada, respiramos um mundo de corujas, faróis e cemitérios empoeirados que carregam um esoterismo viciante e fascinante. 

Uma lição de humildade. Um grande lembrete que as sombras não passam de uma distorção da realidade. Nossa perspectiva sempre pode estar errada e um simples chapéu em um mero jogo independente podem nos provar isso. 

Platão agradece. 

Disponível para PC na Steam por R$ 8,49 e no GOG por R$ 16,99.

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