Ah, o mundo dos games… 1a arte a me acolher, lá com meus 5 aninhos com um belo Atari. Todos meus consoles e PCs cumpriram um função muito importante: foram meus amigos em época de solidão. Meus alunos vivem perguntando se eu jogo online e eu respondo sempre que sou de uma geração que cresceu num mundo sem internet, onde jogar não era só lazer, era uma válvula de escape da triste realidade que era ser nerd e geek nos anos 80/90. Era uma atividade solitária e introspectiva. Como bem já disse Thotti, o pequeno gafanhoto, foi isso que nos aproximou, me aproximou do Gustavo, o viril, e ainda me une com minha adorada irmã com longas jogatinas de Mortal Kombat.

Jogos são arte! Seus roteiros, atuações, fotografia e trilha sonora nos transportam à diversos mundos, assim como nos filmes e nada deixa a desejar em relação à Hollywood (confira o vídeo acima do premiadíssimo The Last of Us). Sem mais delongas, conheçam Inside, vencedor do The Video Game Awards 2016 (Oscar dos games) como melhor jogo independente e melhor direção de arte; também indicado nas categorias melhor design de som, melhor narrativa e melhor jogo do ano.

Tenho apreciado jogos indies (que seguem mesma lógica dos filmes indies) com maior frequência ultimamente por alguns motivos. Dentre eles está a sutileza como temas são abordados e seu custo relativamente baixo, o que permite maior experimentação artística, enredo e gameplay (forma como jogamos). Inside, desenvolvida pela Playdead, é uma verdadeira obra de arte, envolvendo-nos em uma narrativa cativante e com uma atmosfera instigante.

À primeira vista, o visual do game nos remete a seu “irmão mais velho” Limbo (1º jogo da Playdead e que fatalmente aparecerá no Metagames), criando um ambiente obscuro. Felizmente, o game, logo no seu início, consegue se desvencilhar das memórias do seu antecessor, criando uma atmosfera única, de medo e insegurança, que nos acompanha durante todo o jogo. A todo momento, o jogador se sente vigiado e fica em constante estado de alerta… são muitos os perigos no mundo de Inside. A sensação que tive foi de estar em alguma distopia de George Orwell.

É triste e cinza…

Muito difícil abordar o enredo do jogo sem dar spoilers. Nessa obra não há diálogos, cutscenes (cenas literalmente onde  jogador assiste à um filme/animação) e textos. Toda a história é contada através do macro, com amplos zoom outs do cenário, como do micro, com um simples objeto posto em cena. O jogo conta a história de um jovem menino na casa dos seus 10, 11 anos que tenta invadir uma instalação, que não parece militar, mas é guardada por inúmeros sistemas de segurança. Embora o jogo aponte para uma história, seus primeiros 30 minutos me deixaram sem saber o que estava acontecendo. Eu estava fugindo de algum lugar? Estava tentando entrar em algum? Estava sendo caçado ou apenas me deparando com um aparato de segurança? O que meu personagem queira? Tudo isso vai se desenrolando com o passar do tempo de jogo. Os motivos iam se esclarecendo conforme mais dúvidas iam surgindo.

Tecnicamente, Inside é um primor, uma verdadeira obra de arte. A todo momento eu parava para admirar os cenários. Aquela representação cinza de um mundo que perdeu seu rumo há tempos me causava uma angústia grande e uma necessidade de entender o que aconteceu para que ele ficasse dessa forma. Carros abandonados na rua, casas destruídas, animais mortos, lugares que não viam um ser humano há décadas… com as partículas de poeira dançando no ar iluminadas por alguma fonte. Contrastando com essa paleta de cores cinza que o jogo utiliza para contar sua história, a iluminação dava vida a todos os ambientes de alguma forma, tanto com o Sol como com luzes artificiais, que representam parte importante da jogabilidade do game.

“O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.”

A trilha sonora possui um papel fundamental. Apesar de não ser constante, ela aparece sempre para marcar alguma situação de relevância para o jogo, com um crescente que me deixava ansioso para saber o que eu veria a seguir. Os efeitos sonoros do jogo são um espetáculo. Cada passo, objeto caindo, máquina funcionando são reproduzidos com muita precisão. Pude extrair enorme prazer em escutar uma simples respiração ofegante após meu personagem correr desesperadamente para salvar sua vida… parado, contemplando a vista de uma janela.

Embora Inside tenha muitos detalhes que dão significado a história, todos os personagens, incluindo o protagonista, não possuem linhas de expressão ou sequer olhos, nariz e boca. No início foi uma opção que, no mínimo, me causou uma estranheza, mas que passa a não incomodar conforme exploramos o mundo e compõe um aspecto importante da narrativa (ah… como eu queria dar esses spoilers agora…).

A animação é competente e se integra perfeitamente com o som e a iluminação. Já nos primeiros minutos você ficará encantado com a verossimilhança dos movimentos simples, como uma corrida seguido de um tropeço. Todos os aspectos técnicos somados de Inside criam uma imersão profunda, como não via há muito tempo em jogos indies e AAA (o que seria um blockbuster no cinema).

Por ser um jogo de plataforma 2D (você acompanha a ação lateralmente), os puzzles (problemas que o jogador precisa resolver para avançar na história) são recorrentes. Em raros momentos eles parecem forçados e na sua maioria dão a sensação de necessários para sair de determinada situação. Eu tenho dificuldades de dizer se os puzzles são um problema ou não no terço final do jogo. Tradicionalmente os games com puzzles ganham maior complexidade conforme avançamos e chegamos perto do final e esse não é o caso de Inside.

A perda da sensibilidade é o que nos define como espécie.

No entanto, parece que o time de desenvolvimento fez essa escolha de forma consciente. A queda da dificuldade culmina com uma revelação que fez meu queixo cair no chão. Não lembro a última vez que fiquei tão perturbado com o que vi na tela do meu monitor. Fiquei tão perplexo que, de fato, puzzles não eram o que eu queria pela frente.

O jogo é relativamente curto, com cerca de 2h de gameplay (gamers mais dedicados apreciam muito jogos acima de 50h de duração). Isso é ruim? Não foi para mim, pois estava encarando o jogo como uma experiência cinematográfica, então vi um belo filme de 2h, o que é um tempo padrão para o cinema. Caso você seja um gamer que não liga muito para a beleza técnica e narrativa do game e, sim, só quer se divertir jogando, provavelmente vai achar esse tempo insatisfatório. Pensando bem… caso você seja esse tipo de gamer, Inside não é um jogo para você. No entanto, caso você seja um cinéfilo, Inside é feito na medida para sua experiência de transição.

Inside figura como um dos grandes jogos indie do ano de 2016, junto com Firewatch (que achei que seria insuperável nessa categoria e será meu próximo Metagames), Stardew Valley e The Witness. Assim como um dos melhores indie da história junto com meu querido Journey (que certamente estará aqui).

Seu final dá significado ao título do jogo e fecha com primor uma linda e breve saga. Uma crítica bem estruturada de como as corporações nos transformam em uma sociedade sem vida e sem personalidade. Sua narrativa através de efeitos sonoros, fotografia e trilha sonora é o melhor que o mundo dos games pode te oferecer. Inside é, sem dúvida, um dos melhores jogos do ano de 2016.

Disponível para PC na Steam e GOG por $36,99

Disponível no Xbox One por $39,00

Disponível na Playstation Store por $61,00

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