Começo esse MetaGames com um enorme peso no peito e, também, certa frustração. Esse game é meu indie favorito, figura entre os 10 melhores jogos da minha vida e foi o responsável por me introduzir ao mundo dos jogos de baixo orçamento. Esse “colosso” teve 7 indicações no Videogame Awards de 2012 (o Oscar dos games), incluindo indicação de melhor jogo do ano (além de ter vencido com melhor jogo independente, melhor jogo exclusivo para Playstation e melhor trilha sonora), concorrendo contra gigantes com orçamentos muitas vezes maior do que a Thatgamecompany teve para desenvolvê-lo. Esse é um jogo de grande importância para a indústria e, no entanto, não tenho muito sobre o que escrever.

Isso se deve à sua simplicidade. O game se baseia apenas em você andar do ponto A, deserto, ao ponto B, cume de uma montanha (confira o trailer abaixo). Um jogo que aposta em uma dinâmica simples com uma narrativa poderosa. Como andar pode ser algo transformador?

Caro cinéfilo, você já assistiu algum filme que dialogou com o que resta/tem de fé dentro de você? Dentro do Metafictions temos discussões sobre a fé no nosso objeto de trabalho, o cinema. Você pode conferir as críticas e os quadros de Rene Michel Vettori, fervoroso cristão de nosso grupo. Ele consegue extrair de filmes como Noé, Paixão de Cristo e Até o Último Homem, leituras que passam longe da minha, mas nem por isso menos válidas, e estão entre os melhores filmes que ele já assistiu. Como não me conectei ao tema, esses filmes são apenas bons filmes tecnicamente e só. Rene, ao jogar Journey (tentar jogar, porque ele só tem Playstation para jogar FIFA), não extraiu o mesmo que eu. Journey… minha experiência religiosa e libertadora. Minha ida a Meca.

Journey mostra um ser humano (ou assim achamos), partindo em uma peregrinação do deserto rumo ao topo de uma montanha. Não nos são dados motivos, apenas certos indícios de que essa caminhada é uma tradição desse povo. Vemos isso através de antigos painéis acionados após completarmos algum puzzle de baixa dificuldade.

Conforme subimos a montanha, passando pelo o que parecem ser restos de antigas civilizações, sentimos uma tensão misturada com ansiedade no ar. Fica cada vez mais evidente que estamos próximos do cume e que poderemos descobrir o que há lá, revelando finalmente o porquê de estarmos indo nessa direção. O grande poder transformador do jogo surge a partir do fim da minha curiosidade, que cedeu lugar à minha sensação de obrigatoriedade de completar essa jornada. Não veja isso como aquele filme que você terminou de ver só porque já havia começado. Eu precisava chegar ao fim para me sentir realizado e me libertar. Era algo maior do que eu ou do que um simples game, era uma necessidade. E que final emocionante. A mais poderosa experiência religiosa que tive, embora não seja religioso. Foi a minha comunhão comigo mesmo. Quando de fato me dei conta que estava no sofá há 3h, num dia frio e chuvoso, com o controle do meu PS3 nas minhas mãos tremulas e os olhos cheios d`água, eu entendi o verdadeiro poder de se acreditar em algo. Um jogo…

Tão perto, mas tão longe.

Embora tenha sido uma experiência individual e íntima, raramente estava andando sozinho. Em muitos momentos dividia a experiência com um total estranho cujo nome, sexo, idade e nacionalidade eu desconhecia. Tudo o que podíamos fazer era enfrentar as mazelas do percurso lado a lado, em silêncio, com eventuais “bips” que nossos personagens faziam. Um grande sentimento de solidariedade toma conta dos jogadores de Journey, sempre mostrando o caminho para os mais inexperientes ou locais com itens de interesse para nosso companheiro temporário.

Recordo-me quando minha irmã jogou, depois de eu insistir muito. Bem perto do final da jornada, o seu companheiro de peregrinação virou para ela, desenhou com seus passos na neve um coração e seguiu seu rumo. Assisti esse finalzinho encostado no batente da porta sem me fazer presente. Enquanto a trilha sonora subia e os créditos rolavam, eu voltei para o sofá (pois esse jogo deve ser jogado sem ninguém ao lado) ela virou pra mim e apenas sorriu. Isso sem contar meu pupilo Thotti, o pequeno gafanhoto, que teve experiência similar, embora usar a palavra “religiosa” para descrever a experiência dele seria, para ele, algo profanador.

Insignificante diante do desafio.

Não posso encerrar esse MetaGames sem mencionar a fotografia do game, que é de uma beleza ímpar, especialmente agora que o jogo está disponível full hd para o Playstation 4. A trilha sonora de Austin Wintory, desde então, é cativa do meu Ipod e uma das faixas é o toque do meu celular e o da minha irmã. Ao final desse testemunho, segue a apresentação da Orquestra Sinfônica Nacional da Dinamarca de um dos temas do jogo, assim como a letra que traduz em suas referências a essência do game. Meu amigo cinéfilo, caso você ainda não seja um gamer, chegou a hora de você mergulhar de cabeça nessa experiência.

Se esse texto fosse a crítica de um filme certamente daria 6 claquetes. Bem… por que não?

Disponível para Playstation por 30,99

Stat sua cuique dies [Para cada um é dado o seu dia]

Stat sua cuique dies [Para cada um é dado o seu dia]

Mæl is me to feran [Neste momento que parto para longe de ti]

Aleto men moi nostos [Eu ganho com esse nosso momento]

Aleto men moi nostos [Eu ganho com esse nosso momento]

C’est pour cela que je suis née [Eu nasci para isso]

Kono michi ya [Nesta estrada]

Yuku hito nashi ni [Onde mais ninguém viajou]

Kono michi ya [Nesta estrada]

Aki no kure [Ao anoitecer do outono]

C’est pour cela que je suis née [Eu nasci para isso]

Ne me plaignez pas [Não tenha pena de mim]

C’est pour cela que je suis née [Eu nasci para isso]

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