“Não é arte!”

Todo gamer já ouviu algo desse tipo, seja do pai, da mãe, da avó ou do coleguinha de escola/trabalho. A maior causa do preconceito das pessoas aos videogames, como todo preconceito, se deve ao pouco conhecimento dessa formidável indústria por parte das massas. A maioria das pessoas interpreta videogame como algo ou extremamente infantil ou absolutamente fútil, banal e até  hostil. Pergunte a um estranho o nome de um game, ele provavelmente falará de Mario, Call of Duty ou Fifa. Os best sellers. Percebeu a injustiça? Não julgamos cinema pelos mais assistidos do ano (filmes de super herói, blockbusters cheios de explosão) ou literatura pelos livros mais comprados(romances banais em sua maioria), por que então se julga a décima arte.

Porque, sim, é arte!

O MOMA a algum tempo já realiza exposições de games, algumas das experiências mais profundas da minha vida tomaram vida num universo digital. Um jogo possui direção, roteiro, cenografia, direção de arte, assim como cinema. Acima de tudo possui uma imersão com a qual nenhuma mídia pode competir. Num bom game, a experiência depende em sua grande maioria da capacidade do jogador de se dedicar aquele outro mundo. Fonte de escapismo, diversão e, sobretudo, portal para novas narrativas, realidades e existências.

Já fui um bruxeiro polonês de Rivia, um hylian, um encanador ítalo-americano num mundo de cogumelos, um sérvio em busca do sonho americano em Nova York e até agente secreto evitando a construção de um tanque capaz de lançar diversas bombas nucleares. Um METAL GEAR!!!

Sempre que a indústria permitir, nós vamos tratar aqui de alguma obra prima dos games, para você que sempre quis experimentar essas realidades, mas nunca soube qual jogo jogar ou simplesmente  não possui uma máquina que custa milhares de temeres. Todos os jogos que indicarmos aqui são de custo baixo, igual ou superior a uma inteira de cinema, todos eles podem ser baixados em qualquer Pczinho meia boca. Então camarada, você já não tem desculpas para não se apaixonar por essa arte, que, inclusive, me fez entrar no Metafictions.  Foi numa manhã de 2014, eu e meus amigos conversávamos freneticamente sobre o brilhante Bioshock Infinite. O professor, um barbudo tatuado, interrompeu a aula e entrou no  nosso diálogo. Aquele foi meu primeiro contato com quem viria ser meu mentor, mestre, amigo e o cara que me convidou para escrever para você – Ryan Fields. Se não fosse pelos games, eu não estaria escrevendo esse texto, meu cachorro não se chamaria Link e eu não teria essa sensual palidez. Portanto, é uma honra proliferar essa arte que mudou minha vida e eu honestamente espero que mude a sua.

Sem mais delongas, vamos ao jogo.

Em um dos meus romances favoritos, Norwegian Wood, Harukai Murakami descreve o nascimento de uma solidão plena, de um vazio absoluto e completo dentro de seu protagonista. Uma verdadeira caverna espiritual. Mae Borowski também compartilha dessa incômoda presença. Com 20 anos, sem propósito ou direção, assombrada por traumas do passado e, acima de tudo, por um período fracassado na faculdade, ela está voltando para sua cidadezinha natal, a bucólica Possum Springs. Entretanto, como diria Pessoa na forma de Álvaro de Campos: “o lugar a que se volta é sempre outro”.

Essa é a premissa de Night In the Woods, jogo de Alec Holowka, Scott Benson e Bethany Hockenberry. Um drama estranho, soturno e muito, mas muito melancólico.  Com comoventes personagens zooantropomórficos (Mae, por exemplo, é uma gata), o game da desenvolvedora independente Infinite Fall conquista e emociona com uma inesquecível mistureba de Bojack Horseman, Stranger Things e o já citado Norwegian Wood.

Mae foge de si mesma.

Quebrar lâmpadas fosforescentes, “brincar” de trocar facadas com seu melhor amigo, conversar à beira dos trilhos do trem e tocar baixo são apenas algumas das muitas coisas que você pode realizar em Possum Springs. Tudo isso sempre temperado com uma trilha sonora sóbria e triste.  A perfeição porém vem no  desenvolvimento de personagens. Todos parecem retirados de nossas vidas, possuindo feridas e dores que você só desvendará  se resolver passar tempo com eles, trocando inúmeros diálogos todos extremamente tragicômicos.

Com seu universo verossímil  e suas situações reais, a obra suscita uma identificação completa com o jogador. Quem nunca pensou no suicídio ao se olhar no espelho? Quem nunca viu tudo ao seu redor mudando e se viu impotente, estático e desesperado? Quem nunca se pegou sem rumo nessa estrada árdua e solitária que é a vida? Quem nunca perdeu a fé em tudo por pelos menos alguns segundos?

Ouvir as poesias do vizinho, jogar videogame antes de dormir e devorar dezenas de donuts são coisas que eu fiz em Night In The Woods e faria/já fiz na vida real. Dessa forma, você se sente exatamente como a protagonista, porque todos nós já fomos Mae. Assim o jogo cria um canal de empatia e sentimento, explorando o melhor de sua mídia, a total imersão.

“Se meus olhos mostrassem minha alma, todos, ao me verem sorrir, chorariam comigo.” -Kurt Cobain

O tocante da obra vem de como ela lida com todas essas questões como morte, procura por direção, por Deus e por aceitação, bem como de sua abordagem sobre problemas financeiros, de identidade, impotência e solidão de maneira sincera e profunda. Isso tudo ainda contando com uma instigante narrativa paranormal e sequências oníricas de tirar o fôlego.

Um passeio complexo e macabro pelos traumas e memórias da juventude, com uma protagonista feminina forte e cativante, coadjuvantes extraordinários, indo desde um casal homossexual composto por um urso elegante hacker e um cachorro vândalo que usa um capacete fascista personalizado com um A de anarquia, até um pássaro que mora na floresta e passa horas e horas num estacionamento vazio.

Recentemente mudei de escola. Estava há 6 anos em outra instituição, onde eu costumava ser profundamente feliz. Porém, aconteceu, parti por própria decisão e, não posso mentir, tem sido uma diária porrada no estômago. Vejo o mundo mudando ao meu redor, rostos novos e assustadores, meus amigos de outrora assumindo novas facetas e nuances, enquanto eu continuo o mesmo anarquista romântico. Todas as manhãs sinto uma solidão horrenda, uma nostalgia gritante da banha do Bruno, das piadas do Siqueira, Filéo sendo Filéo, das maluquices do professor Dani Massa e das conversas de corredor com o mestre Ryan. Tudo isso enquanto a maioridade bate aos poucos na porta, junto com suas responsabilidades e angustiantes liberdades. Todo os dias sinto a caverna dentro de mim, pulsando.

At the end of everything hold onto anything.

Tenho jogado Night In the Woods por todos os recreios no laptop e vou continuar jogando por um bom tempo. A experiência com Mae e Possum Springs me ensinou que as cidades podem ser abandonadas, as pessoas mudam, vão e podem nunca voltar, mas, ainda assim, mesmo com tanta dor e saudades de tempos melhores, é possível sobreviver a si mesmo. Se não para sempre, pelo menos por enquanto, agarrando-se às pequenas coisas. Como Mae se agarra ao seu baixo, videogame e seus amigos, e como eu tenho me agarrado a essa obra. Pelo menos até novas narrativas começarem a ser escritas e com elas a caverna talvez  se feche.

Disponível na Steam por R$ 36,99s.

Disponível no GOG por R$ 36,99.

Disponível para PS4 por R$ 61,50 reais na Playstation Store

 

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