Minha história com Undertale começou com descrença. Quando alguns camaradas começaram a jogá-lo, eu nem prestei atenção. Após alguns meses, todos, absolutamente todos os meus conhecidos que o haviam terminado diziam se tratar do jogo de suas vidas. Continuei incrédulo. Principalmente porque se trata de um jogo indie, produzido por apenas um ser humano, com gráficos de Nintendo e gameplay semelhante a Pokemon Blue. Como isso pode ser o melhor videogame da vida de alguém em pleno século XXI? Me aporrinharam por cerca de 6 meses. Praticamente enfiaram a obra pela minha goela e, apesar de reticente, lá estava eu, com o letreiro surgindo no meu computador.

Hoje, tendo zerado o jogo  três vezes, posso dizer sem pestanejar: se você deseja conhecer videogames e não sabe por onde começar, escolha essa obra prima. Do início ao fim, Undertale recolhe tudo que a indústria tem de melhor, desde narrativa, construção de personagem, até um gameplay inteligente que complementa com maestria a história. Apresentar esse jogo para alguém é das tarefas mais árduas porque praticamente tudo nele é moldado por você, uma criança sem nome, ou gênero, que cai num mundo de monstros no melhor estilo Alice no País das Maravilhas. Existem três maneiras de jogá-lo, sendo que elas alterarão desde o final da jornada até diálogos das primeiras regiões. Genocida, na qual você dizima todas as criaturas do jogo, pacifista, na qual você poupa todas as criaturas e neutro, na qual você mata alguns e poupa outros.

Um passeio por todos as emoções conhecidas

Em qualquer que seja o modo que você decidir jogar, tudo se funde e se confunde numa mística metalinguagem. Em sua essência, Undertale é um jogo sobre jogos. Uma carta de amor a sua mídia e, principalmente, a todos aqueles que lhe dedicam tempo. É necessário ao menos 18 horas para conhecer todos seus personagens e até mesmo os outrora irrelevantes – vendedores de itens ou NPCS figurativos – têm alma, facetas espessas que dilatam conforme você investe neles. Poucos jogos utilizam o fator de imersão, exclusivo dos games, como  Undertale. Em suas batalhas, inventários e cenários, a obra não só exige que você pense, mas também sinta.  Sempre escolhendo que caminho tomar, diálogo ou violência, e sendo cobrado por suas decisões.

Das três memórias mais fortes que possuo com videogames, uma delas me foi proporcionada por Toby Fox, o maluco que projetou essa dádiva sozinho. Quando fiz o final completo, senti um desamparo absoluto e completo. Daqueles como, o que faço da minha vida agora que perdi todos esses personagens que viraram meus íntimos amigos? Andava pelos corredores de minha moradia sozinho em mim mesmo, como se uma parte minha tivesse ido embora e as memórias daquela aventura latejavam na ribalta mais profunda da minha alma.

Diálogo ou violência?

Necessário destacar a trilha sonora, uma das melhores de todos os tempos. Unindo melancolia, grandiosidade, humor e entusiasmo. Com os acordes de sua trilha você praticamente experimenta 100% as ações de seu avatar. Num jogo sem falas, de apenas texto, é a música que concede o tom.

Gostaria de passar mais 20 parágrafos detalhando cada um dos meus amigos/personagens do jogo. Mas, do fundo do meu coração, espero que você tenha essa experiência sozinho, podendo vivenciar e descobrir as facetas de cada um deles da forma que preferir. Limito-me a dizer que não importa o caminho que escolher, humanidade transbordará do inicio ao fim. De todas as formas, maneiras e nuances. Portanto, caia de cabeça nesse mundo, sinta-se como Alice e, acima de tudo, viva, da forma que quiser, com os personagens que quiser, traçando sua própria narrativa dentro desse país das maravilhas.  Ouvindo música na casa de um fantasma, preparando spaghetti com um egocêntrico esqueleto ou unindo um casal de cavalheiros homossexuais. Nenhuma descrença sobrevive ao vivaz e profundamente belo Undertale, que seguramente arrancará piscinas de seus olhos e deixará lembranças profundas de figuras convulsas, cheias de determinação.

Disponível no GoG e Steam por: 19,99

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