Uma vez eu participei de uma seleção pra ser professora de crianças (e passei, yeah) e, dentre muitas das dinâmicas de grupo que tivemos, uma em especial ficou pra sempre na minha cabeça. Estávamos num círculo e quem o ministrava passou um pedaço de papel e disse: “Isso é um indefeso filhote de cachorro. Ajam de acordo”. Acostumados com improvisação, os professores pegaram o papel e acarinharam, abraçaram, deram nome e passaram a diante. Cada um sendo delicado e entrando na coisa. Por fim, devolveram o papel àquela que iniciou a atividade que, num gesto súbito e bruto, jogou ele no chão e pisoteou, raivosa e impiedosamente. Imersos na atividade, aquilo quase que nos machucou num primeiro instante, apesar de ser apenas um papel. Num tom sábio e conclusivo, satisfeita pela reação dos candidatos de espanto e beirando revolta, ela disse: “É assim que uma criança se sente quando você não acredita no mundo dela. Tenha cuidado por onde – ou no que – pisa.”

Essa alegoria serve pra muitas coisas na vida e não só pra crianças. Eu quero usá-la aqui no contexto do filme “Moana”, que conversou com a minha criança interior e exteriorizou lições pra jovem adulta que sou. Às vezes as pessoas vão desacreditar, aconselhar a não seguir seu instinto ou dizer que você não consegue. Às vezes elas vão dizer que você vai se machucar assim, que expectativas são estúpidas e venenosas ou que tê-las é em vão. Por isso, é preciso cuidado quando manuseamos coisas que não nossas, ou então podemos pisar nelas sem querer. Nem sempre as pessoas agem assim por mal. E em parte dessas vezes elas podem estar certas ou… só tão assustadas quanto você.

“Moana” incentiva a crença em algo bom e legitima que o desconhecido pode ser um caminho próspero e revigorante. E quero enfatizar que insere isso numa aventura que cabe perfeitamente na cabeça dos pequenos com suas fantasias e humor inteligente e na dos grandes, saudosos de uma animação gostosa e adaptável à olhos já velhos.

A história do filme, basicamente, é a seguinte: Moana (Auli’i Cravalho) cresceu numa ilha paz e amor onde tudo corre bem, nada falta e todos vivem acomodados àquela rotina. Até que a ilha começa a ter uns probleminhas e a Moana se propõe – na verdade, sai na marra mesmo sem a aprovação do pai – a resolver as coisas nesse mundo deles. Ela sempre quis sair da bolha da ilha e agora tinha mais um motivo; a sua voz interior que buscava por significado gritava. Daí, ela encontra um semi-deus arrogante chamado Maui (Dwayne Johnson, cara!) que zomba da cara dela por ela ser menina e jovem e humana e blá blá blá, até que….Image result for moana stills

…“First, I’m not a princess. I’m the daughter of the village chief”. Obrigada por isso, Moana. Mais uma vez, um tête-à-tête enquanto eu assistia ao filme. Nunca me encaixei nos padrões disponíveis aí de princesa em minha infância e senti falta de filmes com essa pegada “non-princessed”. Não estou aqui pra entediantemente criticar clássicos como Cinderela, Bela e a Fera, Bela Adormecida (apesar desse ser esquisito mesmo). Eles são o reflexo de um tempo antigo e eu respeito como boas histórias, ainda que antiquadas quando se trata do papel feminino. De toda forma… minhas garotas precisam de novas influências. Precisam se sentir confortáveis se não forem princesas.

Tem mais, porque dessa vez a Disney não cagou em na-da. É legal também a ideia de que é aceitável cometer erros e que eles não precisam e nem devem te definir. E que não é fraqueza querer alguém como alicerce por mais independente e determinada que seja sua jornada – acho que no fundo todo mundo sorri sabendo que tem alguém que pode contar. Ou que tá ali pra te dar um sacode pra vida, pra lembrar do que você é bom (agora já tá ficando muito autoajuda, finalizei).

A Moana vai lá, faz, quebra a cara um pouco, faz mais e mostra que ser garota não impossibilita fazer um bando de coisa, ao contrário do que dizem uns burros por aí. “Who are you?” é o que move, motoriza, guia e fecha o filme. Parece óbvio demais, mas por vezes a gente esquece que entregar-se pra si traz uma libertação do caralho. Um surpreendente mix de fórmulas que deram certo ao longo dos anos na Disney e adicionais mais que necessários diante de uma “nova era”.

“Moana” vem pra satisfazer – e o faz com perfeição.

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