Já fui uma espécie de Chiron (vivido por Alex R. Hibbert na infância, Ashton Sanders na adolescência e por Trevante Rhodes enquanto adulto). Mesmo não vivendo sob as mesmas dificuldades e não marcado pelas mesmas nuances, experimentei o mesmo tipo de dor. E não houve um momento do filme que não me recordasse dessa minha velha ferida que até hoje não se cauterizou. Nem mesmo quando me distraía pelas longas coçadas de barba de meu mentor, eterno mestre, amigo e colega de Metafictions, Ryan Fields, com o qual tive a honra de assistir a película, pude me disassociar da solidão e melancolia que o filme me proporcionou. Um passeio macabro pelo museu de meus horrores antigos.

Tudo aconteceu no mesmo bairro em que assisti o filme, Botafogo. Nunca fui o tipo comum. Um pouco tímido, um pouco estranho e acima de tudo frágil. Vivendo em meu próprio mundo de fantasia, com Batman e companhia. Como se já não fosse uma vítima boa o suficiente para os rituais tribais escolares, eis que numa aula de música, um colega, do nada, me agarra e beija meus lábios. Não penso que houve malícia ou sexualidade por parte do mesmo, creio que fora puro ato de curiosidade de um moleque de 7 anos. Porém, não era minha opção e até hoje não é. Partiu dele e não de mim. Isso ele nunca admitiu e, como era muito mais extrovertido do que eu, contou sua versão dos fatos.

“Tiveste sede de sangue, e eu de sangue te encho.” Dante Alighieri

Converto-me na presa perfeita e não tardou para que começasse. Com desprezo, corriam, fugiam de mim. Sem entender o porquê, fui adquirindo um complexo de aberração e mergulhei na mais profunda das solidões.

Entretanto, dois meninos vieram da tarde.

Desprezo virou ódio. Gritos de “bicha” e “gay”, o que eu mal compreendia, eram rotina. Aos poucos, o verbal virou físico. Meu rosto no chão. Porrada atrás de porrada, seja no ginásio, sala ou corredor. Apenas encontrei conforto escondido atrás das tubulações. Quando pensava que tinha chegado ao ápice do isolamento, experimentei um novo paradigma quanto à sensação do não pertencimento.

Fui me partindo em pequenos pedaços, perdendo a cabeça, gritava e chorava. Eles riam, enquanto eu implorava para não ir à aula. Algum tempo depois, disse “chega”, conversei com meus pais e parti. Deixei ali tudo que era. Até mesmo meu nome. Meu único arrependimento foi não poder revidar. Até hoje há noites que acordo com os punhos cerrados pelo sonho perpétuo de quebrar a mandíbula de meus antigos agressores.

Mahershala Ali é um dos maiores destaques do filme

Minha história dói e até hoje lateja, mas caso fosse adaptada ao cinema, não chegaria perto da tristeza lírica e realista de Moonlight. Carregado por uma  câmera que não descansa até despir completamente seus personagens com os mais diversos ângulos e um diretor que foge completamente do convencional, a película indicada a 8 Oscars (melhor filme, melhor roteiro adaptado, melhor diretor, entre outras) é um brilhante estudo da solidão em três fases da vida.

Chiron é Little na infância, uma criança introspectiva, solitária e já desprezada pelos colegas de escola, marcada pela sordidez do gueto e a falta de amparo por parte de uma mãe drogada, interpretada por uma inspirada Naomie Harris, que se entrega de corpo e alma, conferindo caráter e dignidade a esse papel tão difícil. Não é à toa que foi indicada a melhor atriz coadjuvante pela Academia. Sem refúgio em casa ou na escola, o menino encontra conforto com uma figura paterna extremamente controversa, Juan, personagem a quem Mahershala Ali dá vida com maestria, numa atuação impecável que provavelmente lhe renderá o Oscar de melhor ator coadjuvante.

Na adolescência, Chiron abandona a alcunha de Little. Provavelmente a melhor parte do filme é lotada de cenas fortes, permeadas pela dura temática do bullying e autodescobrimento. Além de mais show de narrativa por meio da fotografia. Por último, a fase adulta, quando, por fim, Chiron assume o nome de Black e temos um ato final arrematador, que levou eu e Ryan Fields a nos olharmos após o fade out e pronunciar um sonoro “Caralho”.

Moonlight é moderno, conta com uma edição privilegiada, uma das melhores direções dos últimos tempos por Berry Jenkins e, acima de tudo, um roteiro sólido, que permite o desenvolvimento de um personagem verossímil que, apesar de pouco verbalizar, fala muito pelas expressões de dor dos atores Trevante Rhodes, Ashton Sanders e Alex R. Hibbert. Nu, cru, poético, uso criativo das cores(azul e púrpuro sobre tudo) e com uma trilha sonora de impacto, a película é sem dúvida a mais memorável das indicadas ao Oscar 2017.

Sob a luz do luar, somos todos igualmente solitários.

Apesar de possuir um subtexto potente, falando  da questão das drogas, racismo, homossexualidade, predestinação e masculinidade, Moonlight não é um panfleto político como o também indicado Estrelas Além do Tempo. Suas mensagens estão bem ocultas e estão lá para olhos atentos que anseiam por buscar significados e não receber tudo mastigado.

Quando saí daquela escola, pensei que nunca mais sentiria aquela solidão, a fúnebre sensação do não pertencimento. Sob a luz da câmera de Barry Jenkins, pude sentir como Chiron todas as agonias e angústias do que é não se encontrar, estar sempre quebrado e partido. Como eu costumava estar. Mais que isso, vi como tudo se funde e se confunde numa estranha dialética interna. Podemos mudar de nomes como Chiron vira Black e eu virei Thotti, mas somos essencialmente marcados pelos mesmos poços e lástimas do passado, que involuntariamente vêm nos visitar, seja na forma de filme ou de qualquer outro jeito.

Achei meu lugar entre as  palavras. Nessas sílabas mortas vivas que digito desde o computador, encontro amparo. Ópio quase diário. Que, por mais que não cauterize minhas feridas, permite-me reparti-las. Espero honestamente que Chiron um dia encontre seu lugar mesmo que seja numa cena extra sob a luz melancólica do luar. Ele merece, mesmo que não leve uma única estatueta dourada para casa.

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