Quando eu era criança a personagem da Mulher Maravilha era algo que me cativava. Acredito que, assim como eu, muitas garotas tenham crescido com a sua referência no meio dos super-heróis, ainda que com um espaço limitado e por vezes falho. O fato é que a inserção de uma mulher salvando o mundo em si já é o suficiente para atrair a atenção de uma menininha dos seus 7 anos. Confesso que, ao contrário de uma porrada por aí (e aqui faço menção a Thotti e Eskina inclusive), não sou nenhuma fã de comics e tampouco acompanho o mundo fantasioso dos super heróis, seja nas telonas ou nos quadrinhos. No entanto, a palatável nostalgia que há em relação à mulher maravilha me é deliciosa, ainda que eu não tenha todo um conhecimento fanático comum ao “ramo”. Assim ia eu à sala de cinema assistir ao novo Mulher Maravilha: uma mistura de melancolia e também nervosismo por ser um peixe fora d’água da coisa toda. Será que eu ia perder easter eggs? Eu tava sozinha no cinema. Não ia ter aquele amigo nerd pra eu cutucar e indagar “que porra é essa aí?” como aconteceu algumas vezes nesse tipo de filme. Era eu e a heroína mais marcante do meu imaginário e que ao mesmo tempo estava adormecida nessa memória.

Aaaaaaaawn…

O filme começa com Diana (Gal Gadot) recebendo de volta uma foto das mãos de Mr. Wayne, fruto de sua participação Batman vs Superman: A Origem da Justiça, e, a partir disso, a história de sua vida começa a ser contada. A imagem de uma mulher elegante, independente e plácida que Diana transmite é, já de imediato, confortante pra cacete. Vemos de onde tal mulher veio, assim como os motivos para que a Mulher Maravilha seja tão, desculpem a falta de melhor palavra, foda. Elementos míticos já conhecidos como a ilha que só tinha mulherzão da porra, as Amazonas, e a inserção de um elenco fantástico dentre elas (destaque para Claire Underw… ops, Robin Wright) são alguns detalhes que me fizeram ficar de olhos petrificados. Naquele momento o que eu mais queria era ser a Diana. E essa gostosa sensação me acompanhou durante quase o filme inteiro. A partir daí vemos que a DC mandou bem dessa vez (não poderia deixar de alfinetar, vocês me desculpem…). Afinal, que sinal de sucesso é maior do que quando o espectador quer entrar no filme? 

Poder, meus caros. Poder.

Quando eu pensei que o filme não poderia me agradar mais, visto sua bonita construção de figuras femininas fortes e inspiradoras, eis que entra em ação o recorte histórico. Dentro da história da ilha existe toda uma ligação com a mitologia, onde Ares, o Deus da Guerra, é a principal ameaça e foco de combate deste contexto. Segundo a história, é ele que gera conflitos no mundo humano, raça criada por Zeus e de natureza genuína até que Ares lhes toque e crie o caos. É a partir dessa premissa que Diana decide como missão apaziguar o mundo mortal, imerso em uma terrível e fatal guerra, através da morte de Ares. E essa guerra é A Grande Guerra…

Por um instante tive certo receio por saber que é tão normal que os filmes, de tantos os gêneros, usem porcamente uma época e a façam de um pano de fundo (ou de chão) histórico. Eu não esperava diferente aqui. No entanto, toma essa, Larissa! É montado um retrato digno da 1ª Guerra Mundial, respeitando a divisão das tríplices aliança e entente, ajuda americana já no final do conflito, Império Otomano dando uma mãozinha pra Alemanha e outras coisas mais. Eu fiquei de fato impressionada como a narrativa manteve-se crível e fiel, ainda que num universo fantasioso.

A Espada de Atena, arma tida como necessária para matar Ares.

Na continuidade do longa há outra inserção que, devo dizer, em muito me surpreendeu – e positivamente: colocou homem sem interferir na pegada “empoderadora” da história. Afinal, como mulher estou acostumada a ver um cara chegar e irritantemente dominar todo o enredo; se isso ocorresse num filme com personagem principal FEMININA seria ainda mais revoltante. Mas, para minha felicidade, minhas expectativas estavam erradas (e é difícil eu ficar feliz por estar errada…).

Steve Trevor (Chris Pine), um piloto da força aérea americana, não é um babacão. Ele é até fofinho. Ainda mais se considerarmos os padrões da época, que reprimiam participação feminina na política, economia e combate (a não ser na enfermaria e em papéis secundários). E, mais uma vez, o filme acerta: retrata os costumes da época atento às limitações e sarcasticamente constrói um humor inteligente como suave crítica. Assim como vemos no trailer Diana questionando o cargo de secretária, as piadas no filme que caem como uma luva em seu contexto, ainda que seja um filme de ação.

Diana e Steve. Shippei.

Diana se une a Steve e o restante do filme se dá com os dois tentando salvar o mundo – mas é claaaaaro que a Mulher Maravilha é que faz a porra toda acontecer! Trevor é uma gracinha, bem intencionado e disposto mas… por acaso você dá uns pulão, defende com destreza tiros com os pulsos e tem habilidades com corda, espada e escudo? Não, né, lindo…

O que se segue são tomadas bem feitas de combate, a inusitada aparição de Ewen Bremner como um dos parceiros de Steve (sim, o escocês de Trainspotting!), incríveis socos – e não tapinhas de veludo – no melhor estilo de “ah é? Mulher é sexo frágil?” e entretenimento de qualidade. Mais uma vez ressalto que a DC fez bonito e limpou sua imagem, meio esculachada desde seus últimos lançamentos (estou sendo polêmica, correndo riscos de vida aqui com essa constatação…). Mas existe um porém… infelizmente, existe um porém. E esse porém justifica o filme não levar 5 claquetes: ele me decepcionou quando eu menos esperava. Foi doído. Eu tinha baixado minha guarda. Eu estava apaixonada. Mas…não era amor, oh, oh, não era. Não era amor eraaaa cilada. Um pouquinho, tudo bem, mas foi uma cilada baixa.

Mulher Maravilha, antes de me decepcionar, quebrando a porra toda.

Voltando a falar da DC, mas agora pra descaradamente falar “mal”, o único erro dentro do longa foi cagar, isso mesmo, esculhambar, com um elemento no final. Não vou me estender em demasia, por temer dar spoiler, mas quando eu já estava com a pupila dilatada, corpo relaxado e totalmente na do filme me incomodei com o final. Não com o final da história, que me parece condizente. Mas com a forma que fizeram Diana se justificar no final da coisa toda. Achei forçado, pobre e decepcionante. E, horrivelmente, lembrou o imbecil deslize de roteiro que vimos em BvS. DC, qual é, parceiros?

No mais, Mulher Maravilha me proporcionou em sua grande maioria momentos de diálogo com uma menininha que se fantasiava de super-heroína sem saber ainda muita coisa dessa vida. E reciclou memórias que se guardavam nessa garota, que ainda aqui reside, e que ainda gosta sim da Diana apesar de não fazer muita questão de fazer parte do mundo dos quadrinhos e afins. Apesar do deslize (que talvez seja só chatice minha mesmo, talvez não…) o filme como um todo dá um bom caldo e é digníssimo de ser assistido no cinema – com amigo nerdão ao lado pra tirar dúvida ou sem.

Ufa!

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