Dorothea (Annette Bening), uma mãe solteira, madura e libertária, decide, no verão de 1979, que a melhor maneira de seu filho adolescente (Lucas Jade Zumann) crescer por dentro, se descobrir e descobrir o mundo é dividindo a tarefa de sua criação com outras duas mulheres: uma fotógrafa punk que tem que lidar com um câncer e suas consequências (Greta Gerwig) e a melhor amiga do rapaz, uma adolescente que esconde seus medos e inseguranças atrás de um comportamento promíscuo (Elle Fanning). Três mulheres brigando pela completude em um século que o historiador Eric Hobsbawn definiu como a era dos extremos.

O século pode ter sido extremista e corrido, mas o filme, dirigido e roteirizado por Mike Mills, se apoia na delicadeza de cada instante. É uma daquelas obras que surpreendem por despertar uma sensação de cinema antigo, pré-MTV e pré-pré-Youtubers. Suas quase duas horas não precisam de nenhum plot twist rocambolesco ou porradaria estético-visual. É cinema de olho no olho, de sussurros (que gritam por dentro, salve Bergman!). Enquanto os créditos subiam eu buscava uma palavra que desse conta do que eu sentia. E não é que o danadinho do Mills me fez ter que buscar um vocábulo antigo, perdido quase de todo pra nós do século XXI? Ao fim do filme, eu estava embevecido. Cinema de embevecimento, ô sensação boa!

Aliás, a pegada da direção é justamente sustentar a produção nas duas bases mais clássicas: roteiro (merecidamente indicado ao Oscar) e atuações. Esses dois eixos se casam numa harmonia vista poucas vezes: o texto fornecendo o trampolim para que os atores saltem e os atores fazendo com que as belezas do texto se ampliem no resultado final. Dá pra notar nitidamente que a mão do diretor decidiu empunhar uma raquete de frescobol, para deixar todo mundo brincando, levantando a bola, ao invés do chicote do “esse filme é meu”. Sábia decisão.

Ainda no campo das atuações, Annette Bening mostra porque é considerada uma das melhores dos nossos tempos. O que ela faz aqui merece ser definido com uma expressão que a minha vó usa e que dá conta de Mrs. Bening: um tour de force. Cada vez que sua Dorothea aparece, o espectador tem vontade de aplaudir. O mais incrível é que as pausas que ela faz são tão eloquentes quanto suas palavras. A atriz forja na tela a imagem perfeita dessa mulher, que nasce na grande Depressão, cresce na Guerra, torna-se mãe nos anos 60 e se vê num mundo novo nos 70. Bravo! Selo Meryl Streep de aprovação.

O resto do elenco também segura a peteca com muita competência. É preciso destacar o trabalho de Greta Gerwig. A intensidade que ela empresta à composição de Abbie fornece alguns dos melhores momentos do filme. Elle Fanning e Lucas Jade Zumann formam uma dupla excelente, as cenas dos dois juntos são de uma sinceridade que emociona. E o rapaz, aliás, merece palmas por se posicionar tão bem, aos 16 anos de idade, neste que é seu segundo filme, num elenco de atrizes e personagens femininas tão fortes.

Outro ponto alto é a estética da produção. À maravilhosa direção de arte, minimalista sem ser esnobe, juntam-se uma fotografia belíssima, remetendo à Polaroids e viagens de LSD em alguns momentos, e uma edição muito bem feita.

Este Mulheres do século 20 precisa ser visto por mulheres e homens do século 21. É bonito, é relevante, é necessário. Vai te pegando aos poucos e, quando você vê, você está realmente se importando com aquelas personagens. Porque você percebe que o Humano não tem século.

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