As duas primeiras temporadas de Narcos (em especial a primeira) nos deram uma fábrica inesgotável de memes, 100% deles oriundos da figura magnética do mítico Pablo Escobar e muito por causa da interpretação entusiasmada, ainda que um tanto galhofada no que tange ao seu espanhol, de Wagner Moura. Nelas, testemunhamos a ascensão, ápice, declínio e morte de Escobar, tudo mostrado do ponto de vista de Pablo e da dupla de agentes Javier Peña (Pedro Pascal) e Steve Murphy (Boyd Holbrook), sendo este último o narrador da história.

Em sua terceira temporada, Narcos mantém aquela identidade visual e narrativa já consagrada nas duas temporadas anteriores e descaradamente copiada dos Tropas de Elite, obra máxima de um dos criadores da série, o brasileiro José Padilha. Se em Tropa de Elite tivemos o agora messiânico Capitão Nascimento como narrador e nas duas primeiras temporadas de Narcos tivemos o recém chegado à Colômbia agente Murphy, agora o narrador e protagonista da série é Peña, mais uma vez vivido com bastante verve e gosto pelo chileno Pascal. Temos aqui também os mesmo cortes rápidos, câmera na mão, muitos closes e a apresentação da cidade como personagem da narrativa (Rio de Janeiro, Medellin e agora Cali).

Em suma, é mais do mesmo. A pergunta que se faz é: há vida após a morte de Pablo Escobar?

A resposta foi dada com elã por esta temporada. Sim, há. E, se o final da temporada é indicativo de alguma coisa, há vida para fora da Colômbia inclusive. Narcos, mais do que nunca, se mostra uma série não sobre um ícone do narcotráfico, mas sobre o próprio negócio bilionário do tráfico de drogas e este, sabemos, tem uma fonte inesgotável de histórias reais nas quais se basear.

Na vida real, o agente Peña foi para casa. Na série, ele é enviado como adido do DEA (a agência antidrogas americana) na embaixada americana na Colômbia, representando uma clara amálgama de vários agentes e pessoas reais em um só personagem. Isto, apesar de ser compreensível para os fins de se contar uma história, incomoda um pouco, já que Peña, o líder do DEA na Colômbia, sai em batidas e tocaias como se ainda fosse um agente. Sua missão é parar o Cartel de Cali, anunciado aqui como a maior organização narcotraficante da História, muito embora interesses escusos e políticos coloquem obstáculos a sua frente a todo momento.

Apresentados os grandes vilões dessa temporada – Gilberto (Damián Alcázar, mexicano), Miguel (Francisco Denis, venezuelano), Pacho (Alberto Ammann, argentino) e Chepe (Pêpê Rapazote, português), Los Caballeros de Cali, os grandes chefões do Cartel de Cali – descobrimos que Gilberto está planejando uma rendição ao governo colombiano que lhes permitirá manter todos os seus bens e negócios legais, entregando ao governo apenas as suas operações narcotraficantes em 6 meses, o que dará aos traficantes um tempo para tentar sangrar ao máximo o mundo com seu negócio. Isto, por óbvio, não agrada a todos e é um prato cheio para os roteiristas.

Além de focar nas negociatas desses chefões e nas tentativas de Peña de, apesar da politicagem, conseguir fazer alguma coisa, desta vez a temporada acompanha um terceiro núcleo, personificado exclusivamente pela pessoa de Jorge Salcedo (o SUECO Matias Varela), um dos chefes da segurança do Cartel de Cali e cujo testemunho foi o principal responsável por sepultar de vez a organização na vida real.

Os criadores da série estão cientes que estão tratando de uma história cujo final todos já sabem há uns 20 anos. A fórmula que funcionou nas temporadas anteriores e continua a funcionar aqui é a de criar tensão e ação a cada episódio, baseando-se em episódios reais de batidas policiais ou negociações entre as partes para tanto. O formato ainda funciona, apesar de mostrar sinais de cansaço. Em todo episódio alguém quase é preso, quase morto ou tal negociação quase dá certo. Por vezes até que a coisa não fica só no quase, mas a lógica permanece.

Felizmente, a série é não só bem escrita como também bem dirigida, contando também com performances sólidas de todo o elenco, destacando-se nesse quesito o sueco Varela, o português Rapazote, o chileno Peña e o espanhol Javier Cámara (que interpreta o contador Pallomari). Temos ainda algumas participações muito especiais de atores de renome e reconhecido talento como o grande Edward James Olmos, Wayne Knight, Shea Whigham e o comediante Gabriel Iglesias, além da lindíssima Andrea Londo.

Apesar do Cartel de Cali ser apresentado como uma máquina azeitadíssima e infalível, Narcos é também uma ode ao acaso, demonstrando que não há medida de planejamento que consiga dar conta do imponderável. A máxima de que “merda acontece” é usada ad nauseam e, apesar de termos provas disso o tempo todo, ela fica ainda mais incontestável quando se envolve ganância, cocaína e políticos. Principalmente políticos.

Contando com uma fórmula de sucesso e um elenco internacional do qual não consta um malparido de um colombiano, Narcos continua sendo relevante como referência histórica e funciona perfeitamente bem como drama policial. Para os fãs do gênero, são mais 10 episódios de 50 minutos em média para consumir, sendo certo que já há uma 4ª temporada confirmada e uma 5ª que parece ser inevitável.

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