A temática é velha conhecida e já foi amplamente explorada na cinematografia mundial (em especial a de Hollywood): o Holocausto – termo este que, durante o presente texto, irei substituir por “extermínio dos judeus”, pois holocausto, em sua origem, significa “sacrifício a uma divindade” e alguns historiadores não consideram seu uso adequado para o fato histórico em debate. Sem pesquisar, fazendo uso apenas da memória e de maneira muito rápida, com este assunto temos: Filhos da Guera (dirigido por Agnieszka Holland), A Lista de Schindler (dirigido por Steven Spielberg), Ida (dirigido por Paweł Pawlikowski) e o recente Filho de Saul (dirigido por László Nemes). É evidente que há muitos outros e a lista seria próximo do Infinito. No entanto, Negação, dirigido por Mick Jackson, não volta ao momento ocorrido para falar sobre ele.

Baseado em fatos reais, o filme nos mostra a jornada da escritora Deborah E. Lipstadt (Rachel Weisz) para provar o extermínio dos judeus durante a II Guerra Mundial, em resposta ao processo de difamação promovido pelo também escritor David Irving (Timothy Spall), que nega a existência desse fato histórico. A batalha judicial ocorreu por volta do início do século XXI (iniciando alguns anos antes).

A produção vai até Auschwitz para filmar

Durante a introdução, temos a apresentação de ambos os personagens: ela, uma especialista no assunto, e, por sua origem judaica, defensora dessa verdade histórica; ele, um antissemita racista, também especialista no assunto, mas tendencioso em suas alegações. Tínhamos aqui um excelente material polarizado: a História não produz verdades; ela produz a representação de alguém (ou de um grupo) acerca de um fato histórico. A representação de Lipstadt é a historicamente aceita (de que houve o extermínio); a de Irving, a negação. O problema é que ele não faz uma releitura de um acontecimento. Não, Irving nega o fato histórico em si.

Após o conflito ter surgido, o filme se torna uma daquelas histórias de julgamento. Vários encontros no tribunal até o veredito do caso. Se bem me lembro, todo e qualquer filme desse estilo conta com reviravoltas: ou o personagem está perdendo todo o julgamento, quando consegue reverter; ou está ganhando, mas a outra parte traz uma nova informação que pode mudar os rumos daquele veredito. Neste filme, no entanto, isso ocorre duas vezes apenas: uma, que é resolvida logo nas duas próximas cenas; e outra – a meu ver bem forçada – que é utilizada para se ter um suspense do veredito. Tão somente.

Apesar de belas atuações, uma direção segura; apesar do tema ser extremamente interessante e a possibilidade da discussão sobre verdades históricas e pós-verdades ser excelente, a impressão que dá é que, após duas horas de filme, saímos com a mesma certeza de que quando entramos.

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