Assisti Neruda no cinema próximo a minha casa, um cinema pequeno, de pipoca ruim e cadeiras pouco confortáveis. Entretanto, me sinto amparado naquele ambiente que me traz uma nostalgia do que não vivi. Da época dos cinemas de rua, das salas pequenas, da repressão ao ruído repreendido com forte “shhh”, dos anos onde o fascínio era com a tela e não com a pipoca doce trufada ou as cadeiras reclináveis. É a minha própria espécie de túnel do tempo.

Havia comprado o ingresso um dia antes, cheguei cedo e sozinho esperei num banco modesto. Tentei comprar uma coca, mas não tinham troco para a nota. Haviam acabado de abrir. Quando voltei meu lugar havia sido ocupado. Por uma idosa que aparentava ter fugido da UTI. Acabei por me dirigir a porta da sala, onde o lanterninha, bilheteiro ou seja lá como chamam o homem que verifica os ingressos aparentava nervosismo.

-Aqui é o Neruda?

-Sim, mas o ar da sala pifou.

Minha decepção foi nítida, ele recomendou pedir ressarcimento ou assistir outro filme porque apostou que eu não conseguiria assistir 2 horas sem ar condicionado com o calor de 40 graus do verāo carioca. Eu estava a ponto de desistir quando um velhinho veio fazer o mesmo questionamento que eu fizera ao bilheteiro:

-Aqui é o Neruda?

-Sim, mas a sala está sem ar. Respondi antes do bilheteiro.

-Ótimo,assim faço sauna e vejo o filme pelo mesmo preço !

Aquele otimismo romântico e juvenil me desequilibrou. Me joguei rumo à sala vazia, sentei em qualquer cadeira e esperei pelo filme.

Quando a palavra “fim” emergiu na tela e os créditos desceram eu me dei conta do calor, porque nas outras 2h eu não havia prestado atenção em mais nada além do mais novo trabalho de Pablo Larraín.

A história do poeta comunista chileno perseguido visceralmente por um policial truculento me deixou petrificado na cadeira. As palavras líricas que a narrativa usa e abusa, as cenas memoráveis, a direção impecável, fotografia deslumbrante e atuações magnânimas de Gael García Bernal (o policial) e Luis Gnecco (Neruda) me fizeram pensar que o suor que escorria de minha testa era lágrimas. A reconstrução de época, a câmera passeando por aquele Chile já atormentado, que não podia imaginar a tragédia pela qual passaria. Tudo feito com tanto esmero e força que é impossível não se deixar levar pelas imagens.

Neruda é um suspense delicioso, um drama malicioso, um filme de ideologias que nada tem de ideologias. Em suas duas horas  desliza sobre a esquerda festiva, de bailes orgíacos e artistas que justificavam seus excessos na dor dos outros. Também não se esquece da direita truculenta, corrupta e fascista personificada em campos de concentração no interior do Chile e na sombra de Pinochet cada vez mais forte a cada frame.

Mas o filme é mais que isso, é uma autêntica obra sobre ficção, tanto a dos seus personagens quanto as de seu tempo. Duas almas entrelaçadas e obstinadas, buscando lugar ao Sol quente da história. Um homem da lei, em busca do legado de seu pai fundador da polícia chilena. Um poeta tentando passar de suas obras sobre amor e luxúria para se transformar em tocador da corneta da revolução. Dessa forma, os dois se afundam numa perseguição de gato e rato no coração do século passado.

Apesar de sua técnica impecável, ritmo frenético, roteiro bem trabalhado e personagens envolventes, o que mais me chamou atenção em Neruda foi a nostalgia que me foi provocada. Semelhante a que tenho quando entro no cinema em que estava, o filme me fez sentir saudades de uma época que não vivi. Onde as ideologias se dilaceravam em meio a glamour, chapéus e cigarros. Tempos de Truffaut e Godard, onde havia substância mesmo cheia de hipocrisias e deturpações, ainda sim época de dialética.

Quando nasci, Truffaut já havia partido, o muro de Berlin caído e os cinemas de rua caminhavam para sua extinção. Agradeço a filmes como Neruda que me permitem ir em busca de um tempo que não é meu, onde as filosofias e ideologias ainda não haviam virado ruínas e os sonhos dos homens, pó.

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