O cinema argentino se firmou, nas últimas décadas, como uma das mais consistentes produções culturais da América Latina. Ousados e criativos, nossos hermanos se permitem passear por vários gêneros, profundidades e experiências temáticas. É merecidíssimo o reconhecimento que eles vêm recebendo. Com uma carreira consolidada na assistência de direção, Martin Hodara assina seu segundo filme como capitão e se arrisca no thriller com este Neve Negra.

Em essência, o enredo é bem simples: Salvador (o onipresente ator-símbolo da Argentina Ricardo Darín) vive isolado no meio das neves da Patagônia. Acusado de ter matado o irmão na adolescência, ele é praticamente um ermitão, imerso em seus fantasmas e em seu silêncio. Com a morte do pai, ele recebe a visita do irmão Marcos (Leonardo Sbaraglia) e da cunhada Laura (a excelente Laia Costa), dispostos a vender a propriedade da família. Completando o disfuncional clã shakespeariano-patagônico, temos a irmã, Sabrina (Dolores Fonzi), que sofre de problemas mentais e está internada em uma instituição.

Essa disposição quase teatral do plot permite que os atores exibam performances poderosas. Darín assume uma postura muito diferente da de todos os seus outros filmes. Em vez de sua verborragia apaixonante, temos aqui uma atuação pautada no silêncio, no “menos é mais”. Ele é um ator em pleno domínio de seu ofício, é sempre muito prazeroso ser plateia com o Señor Ricardo na tela. Sbaraglia constrói bem o seu Marcos, dúbio, interessante. Mas Laia Costa é quem mais brilha. Presença de tela, a gente vê nessa moça!

A direção de Hodara cria com muita competência o clima de tensão que o gênero pede. Sua câmera é invasiva, ágil. O frio das neves contrasta com um olhar que deseja esmiuçar, detalhar. Apoiado em uma montagem primorosa – há tempos que não via transições de cenas tão poeticamente feitas -, o diretor consegue aproveitar bem o esquema narrativo que se apoia em flashbacks, fazendo interessantes e fortes escolhas sobre a temporalidade narrativa.

Mas o que mais salta aos olhos é a fotografia! Que trabalho impecável! É óbvio que a escolha do cenário facilita muito a produção de belas imagens, mas o trabalho do diretor de fotografia  Arnau Valls Colomer vai muito além disso. Ele evoca outros sentidos através da imagem. A pesquisadora de cinema Laura U. Marks, em seu excelente livro The Skin of Film (dica máxima de leitura para qualquer estudioso ou apaixonado por cinema), diz que um dos traços do cinema intercultural do nosso tempo é a construção de memórias que se liguem ao toque, ao cheiro, à “fisicalidade”.  Vendo a fotografia desse Neve Negra, eu entendi totalmente o que ela disse.

No entanto, o filme peca no seu quesito mais básico: o roteiro. A despeito de todas as qualidades da obra, ele não consegue dar conta das camadas de profundidade que desejava obviamente construir. O tal final ambíguo e surpreendente que os divulgadores estão vendendo está lá, mas a chegada dele se dá através de um deus ex-machina que não precisa nem tentar porque não convence mesmo. Uma pena.

 

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