“Verdi è morto!”, urrava em lamentos um indigente corcunda pelos campos e estábulos de uma fazenda no interior da Itália. Assim se a anunciava o século mais revolucionário da História. Simultaneamente, gritava-se “Un bambino!” tanto na varanda do casarão dos proprietários, quanto das frestas rústicas do casario dos campesinos. Assim começa 1900, o épico ítalo-franco-alemão de Bernardo Bertolucci.

Pode ser que o digam filme. Há quem o enxergue como o retrato de um tempo onde o mundo entrou em convulsões. Eu chamaria de aula de História, com senso crítico e humanista. Ou reflexões sobre os paradoxos desumanos da Humanidade.

Os bambini citados logo nas primeiras cenas são Alfredo (quando adulto, Robert De Niro) e Olmo (mais tarde, Gérard Depardieu), nascidos no mesmo dia e na mesma hora, porém no avesso de condições. Um, filho do senhor. Outro, filho não se sabe de que pai na comunidade que trabalhava as terras. Nascia assim, ao som de Verdi numa releitura tocante de Ennio Morricone, a dicotomia que acompanhou o século: o capital e o trabalho sempre às turras.

A saga percorre anos de alta fervura na primeira metade do século XX, desde 1900 até o final da Segunda Guerra Mundial, com os fatos, processos e conflitos que fizeram o mundo tremer: a Revolução Industrial, a eclosão do capitalismo, as relações opostas de patrões de um lado e operários e camponeses do outro, a Primeira Guerra, a Revolução Russa e suas influências, a disseminação dos ideais socialistas, a aparição aterrorizante do fascismo na Itália e do Nacional Socialismo na Alemanha, a Segunda Guerra e suas consequências aliviantes e desastrosas ao mesmo tempo. Tudo isso conduzido pelo fio da amizade singela entre dois garotos, que se rompe ao sabor dos acontecimentos.

No início do filme – que tem 5 horas e tal, dividido em duas partes -, a pureza da infância rege a história. Tal como a canção Morro Velho de Milton Nascimento, “cresceram os dois amigos atrás de passarinho” e, no caso do filme, caçando rãs no brejo, fazendo estripulias na linha do trem. Olmo, mais esperto, ensinava hábitos transgressores ao ingênuo Alfredo, como furar o bolso da calça para se masturbar em pé.

Mas eis que a consciência de suas origens vai azedando a relação. Explode a Primeira Guerra e Alfredo vai embora para a cidade grande e, mais uma vez, com licença de Milton Nascimento, “deixando o companheiro na estação distante. Quando volta, já é outro”, numa cena antológica do trem entrando e saindo da escuridão de um túnel, trazendo na janela um Robert de Niro fardado, vestindo um Alfredo adulto e encantado pela juventude de filho de rico. Encontra Olmo, que também já é outro, na pele de Gerard Depardieu, um jovem amargo, idealista, sofrido e imbuído de seu papel na luta de classes que emergia. Há uma tentativa de aproximação frágil, quando Alfredo apresenta Olmo às extravagâncias da época, das mulheres cheirosas e embrulhadas em pérolas, do glamour provisório, dos delírios de um contexto perfeito, da curiosidade pelas armadilhas do haxixe. Dura pouco a retomada. O mundo em volta os chama para a briga. A defesa por sua gente explorada leva Olmo a se afastar de um Alfredo enfeitiçado pelos rituais fascistas, trincheiras do capital, da riqueza acumulada e da propriedade. Justiça seja feita, Alfredo não era um fascista raiz, apenas um deslumbrado rico dono de propriedade. O fascismo encapetado fica por conta de Attila (Donald Sutherland), o capataz cruel, corrupto, bajulador, perseguidor de opostos, “terror dos comunistas”, capaz de matar uma criança e incriminar injustamente os campesinos vermelhos. Esta é apenas uma das tramas de uma saga gigantesca, que reúne dezenas de situações e personagens em tempos diferentes, vividos por atores que, tanto quanto o filme de Bertolucci, fizeram história com a História. A ver: Dominique Sanda, Donald Sutherland, Burt Lancaster, Francesca Bertini, Laura Betti, Werner Bruhns, Stefania Casini, Sterling Hayden, Anna Henkel, Ellen Schwiers, Alida Valli, Stefania Sandrelli, entre muitos mais.

Novecento não foi pródigo em premiações. Tão somente foi reconhecido pela Dinamarca, como melhor filme do Prêmio Brodil, algo de significância desproporcional ao que realmente representa para o cinema e para a própria História a ser estudada. Apesar do seu valor na prateleira nobre dos grandes filmes – raro de se encontrar, eu mesmo revi num obsoleto vídeo cassete – 1900 não é do agrado de todos, talvez por ter sido conduzido pela batuta de um diretor assumidamente comunista, criticado por sua parcialidade política. Mas não chega a ser um Encouraçado Potemkin, o comercial mais explícito e inspirador do pensamento stalinista, mas mesmo assim Novecento ganhou da maldosa Revista Veja a alcunha irônica de “E O Vento Levou das Esquerdas”.

A cena final do filme –  terminada a Segunda Guerra, derrotados os nazifascistas e dividido o mundo em dois polos ideológicos – expõe uma metáfora aplicável até os dias de hoje, em plena segunda década do século XXI: Alfredo e Olmo se engalfinhando pelo trilho do trem que outrora os uniu. Já velhinhos, não conseguem se pôr de pé entre tapas e tentativas de rasteiras mútuas. Nada mais atual. O que temos hoje é a releitura da eterna peleja entre esquerda e direita, desdobrada em outras rixas sempre binárias, incapazes de enxergar soluções nas nuances: petralhas e coxinhas (ou bolsominions, para ser contemporâneo), amor e ódio, estupidez e ternura, racionalidade extrema e sentimentos inflexíveis, os ditos progressistas e os chamados conservadores, donos do bem e do mal, Flas-Flus apitados pelo pesadelo da distopia.

E segue a Humanidade sua saga de ter dois velhinhos brigando por suas intolerâncias dogmatizadas, sem o glamour extravagante do talento de Bernardo Bertolucci, o mesmo que havia chocado o mundo anos antes com o rascante e amanteigado “Último Tango em Paris”, no qual a protagonista Maria Schneider, depois de urrar de verdade numa cena de sodomia, declarou em público que seu parceiro de set de filmagens, Marlon Brando, só era bonito do pescoço para cima.

Mas isso é outra história. Vamos focar na semelhança de 1900 com os tempos atuais, ou melhor, com os tristes tempos atuais.  Bertolucci morreu, Robert De Niro já não é tão bonito, Dominique Sanda fora carcomida pela ação implacável do tempo, Donald Sutherland se perdera em filmes de menor importância e Depardieu mais parece um Shrek. E seguimos caminhando de ré, por um mundo adoecido e armado, a largos galopes em direção à Idade Média, bem anterior a 1900. Pior: sem esperança de um Renascimento.

Que Novecento seja revisto por quem puder. Tanto quanto sejam os olhares cristalizados para o mundo e para vida.

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