O Presidente da República recém eleito – e portanto legitimado – espinafrou em público a Folha de São Paulo e um repórter do Globo. Pior: deu chilique, proferiu impropérios e ameaçou os dois jornais com corte de verbas publicitárias do Governo. O Presidente dos Estados Unidos chamou um jornalista da CNN de “terrible person” na sua cruzada insana contra a mídia que expõe ao ridículo seus arroubos histriônicos.

A primeira atitude de pessoas físicas, jurídicas ou políticas de traços autoritários é controlar e cercear a mídia. Hitler fez isso, Mussolini fez isso, Stalin fez isso, Pinochet fez isso, Zé Dirceu sonhou com isso. No Brasil, era comum o “empastelamento” de redações na Ditadura Vargas, tanto quanto na ditadura brasileira mais recente, quando habitavam oficiais à paisana as redações de jornais, sendo driblados várias vezes pela astúcia de redatores e editores. Recentemente, o mundo viu coisa pior: jornalistas franceses foram metralhados em pleno exercício da profissão, na redação do Charlie Hebdo, um tabloide irreverente e atrevido, tal qual o nosso saudoso Pasquim, igualmente alvo da alça de mira de nossos não saudosos militares. Hoje se fala em fake news e a primeira providência sobre elas é checar as verdades em marcas de respeito e credibilidade. Exatamente as marcas que incomodam gregos e troianos. Coloque todos esses pensamentos e fatos num liquidificador e veja como a mídia é um tema polêmico, fascinante e rico para o cinema. E não é que é?

Posso citar alguns produtos que Hollywood ofereceu ao mundo, como reflexão sobre a importância da mídia e da liberdade de expressão, seus exageros e manipulações, perseguições e investigações. Anotem: Jejum de Amor (1940), de Howard Hawks; Cidadão Kane (1941), de Orson Welles; Rede de Intrigas (1976), de Sidney Lumet; Todos os Homens do Presidente (1976), de Alan J. Pakula; Os Gritos do Silêncio (1984), de Roland Joffé; Nos Bastidores da Notícia (1987), de James L. Brooks; O Preço de uma Verdade (2003), de Billy Ray; Boa Noite, e Boa Sorte (2006), de George Clooney; Frost/Nixon (2008), de Ron Howard; Spotlight: Segredos Revelados (2016), de Thomas McCarthy e The Post – A Guerra Secreta (2017), de Steven Spielberg.

Em contraponto, um dos maiores clássicos do cinema é exatamente um dedo na ferida do comportamento da imprensa sensacionalista e chantagista, rasa, marrom e antiética. Chama-se A Montanha dos Sete Abutres, que assisti na faculdade, mas não tenho a menor ideia onde encontrá-lo numa telona para me certificar que jornalista também pode não ser Fada Sininho, Sherlock Holmes ou guardião da pura e santa verdade. Há jornalistas e jornalistas, e nenhum escapa de bons roteiristas e bons diretores.

Dirigido pelo lendário Billy Wilder (já homenageado aqui em outro Nostalgia), o filme conta a história de Chuck Tatum (Kirk Douglas), um repórter decadente, de quinta categoria mesmo, que vai atrás de um emprego num jornal local e para conseguir a vaga corre atrás de um primeiro furo de reportagem que possa aparecer. E aparece.

Albuquerque, Novo México. O repórter veterano traz na sua pauta 11 fracassos pessoais por 11 razões diversas. Quebrado, implora uma mísera chance a Jacob Q. Boot (Porter Hall), o dono do jornal local. No entanto, depois de um ano, nenhuma razoável oportunidade jornalística acontece, nada que lhe rendesse uma boa matéria. Tatum desanima e quase entra em desespero quando é designado a cobrir uma corrida de cascavéis no deserto.

Mas eis que a sorte lhe chacoalha.

O que seria mais uma matéria boba, sem o menor atrativo, se transforma na chance de mostrar seu caráter nada duvidoso. Vai para o deserto acompanhado por Herbie Cook (Robert Arthur), auxiliar, motorista e fotógrafo. No meio do caminho param num posto de gasolina e, conversa vai conversa vem, acabam descobrindo que um tal de Leo Minosa (Richard Benedict) ficou preso em uma mina quando procurava por “relíquias indígenas”. Tatum fareja que este fato banal é sua chance de ouro e mergulha em conduzir toda a situação. E consegue, ao seu modo sub-reptício. Transforma o resgate de Leo em uma febre nacional, atraindo milhares de curiosos, cinegrafistas de noticiários e comentaristas de rádio, além de forçar Lorraine (Jan Sterling), a mulher de Leo, a se fazer passar como uma esposa arrasada. Na verdade ela queria dar fim ao casamento, mas Tatum a convence que centenas de curiosos iriam abarrotar os cofres da sua lanchonete de beira de estrada, quando o mundo chegasse para cobrir o acontecimento. Para esticar o espetáculo da mídia, Tatum faz tudo para esgarçar o tempo do resgate de Leo, a ponto de transformar o que se daria em horas em dias e dias de sensacionalismo.

Partindo da premissa do próprio Tatum (“más notícias são as que mais vendem”), o filme imprime a exploração de forma circense da desgraça alheia. Há momentos antológicos, como a chegada de Tatum e Herbie à Albuquerque e Lorraine Minosa arregalando olhos avarentos depois de desistir de chutar o balde do casamento, atraída pela possibilidade da fácil conquista de fama e dinheiro. Sua perspectiva de reconciliação com o marido soterrado chega a ser comovente, engrossando o caldo de personagens inescrupulosos. A direção do versátil Wilder conduz anti-heróis ao anti-clímax do circo inventando por Tatum, quando tudo se desfaz de uma hora para outra e o interesse da mídia desaparece como uma cascavel no deserto.

Este é um belo exemplo às avessas, quando jornalistas anti heróis também estão no foco das câmeras do cinema.

Gostaria muito de reencontrar A Montanha dos Sete Abutres, não só pela atualidade do mote. Mas principalmente para revê-lo aos meus olhos de hoje e recomendá-lo àqueles que generalizam a mídia como uma ameaça ao que entendem que sejam seus valores democráticos. Assim como há Bob Woodwards e Carl Bernsteins, que levaram Nixon ao suicídio político, há milhares de Chuck Tatuns povoando o deserto da ética. Cabe ao bom senso, não controlar a mídia e a liberdade de expressão. Mas controlar os chiliques.

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