Quarentena, isolamento social, confinamento. Seja lá que nome tenha, há que se respeitar o recado da ciência. É duro, mas pode ser proveitoso ou mais que isso: segundo o sociólogo francês Michel Maffesoli, “a pandemia marca o fim do modelo da sociedade moderna e os valores que irão prevalecer já se podem sentir nas janelas e redes sociais”. Tiro o chapéu.

Enquanto o corpo se limita aos cômodos da casa, com escapulidas na janela para cumprimentar um vizinho, aplaudir os médicos ou bater panela, a cabeça não para. Penso no sociólogo francês e em todas as mentes sensatas que discorrem sobre o momento crítico em que vivemos, em contraponto ao bestialógico irresponsável que escorre de bocas perversas. Estou convencido: estamos navegando em plena pororoca da História, um divisor de águas, uma Terceira Guerra Mundial, onde o inimigo só não é invisível porque tem como aliados as tais bocas perversas e sua verborragia ignorante, que contagia quem quer ser contagiado.

E enquanto tento neutralizar a contramão da insensatez, penso na própria História do planeta, nos seus meteoros, suas pestes, suas mazelas causadas pelos próprios terráqueos, fatos que mudaram jeitos de ser. Para esgarçar este pensamento, recorro ao cinema e encontro um exemplar precioso e análogo à desgraceira em que estamos imersos: a Noite dos Desesperados, um filme cruel, que não poupa ninguém de viver as consequências de um outro divisor de águas da História Contemporânea, o crash da Bolsa de 1929 e sua Grande Depressão à reboque. Não é exagero, nem pessimismo paranoico: temo estarmos à beira de uma Grande Depressão, à moda século XXI.

Se o crash da Bolsa gerou impacto, desemprego e miséria, ele também abriu tapetes de honra para regimes ditatoriais disfarçados de salvadores da pátria, quando Adolf Hitler se consagrou e o nazismo eleito se espalhou, provocando uma mortandade de milhões e mudando a face geopolítica da Terra. Espero que o ser humano evoluído tenha aprendido e não faça das consequências violentas e recessivas do Novo Coronavírus uma Nova Depressão Mundial. Espero que líderes, economistas, cientistas e a população comum atordoada e desafiada tenham capacidade para isso.

O recorte dramático imediato que vemos no filme não é a Guerra que se seguiu a médio prazo, mas é de um incômodo de chorar no cantinho, quando olhamos as circunstâncias que nos rodeiam aqui e agora.

Durante tal período desastroso, a recessão levou à indignidade e até ao suicídio uma imensa parcela da população mundial, em especial a norte-americana. Foi nesses tempos que, entre outras ideias esdrúxulas, apareceram os concursos de dança que desafiavam ao extremo a resistência dos neo-miseráveis, egressos das classes alta e média de vida confortável até então. O prêmio? Comida, roupa e alguns míseros trocados. O filme conta isso. Uma história quase documental de Horace McCoy com roteiro de James Poe e Robert E. Thompson. Jane Fonda e Susannah York foram indicadas ao Oscar de Melhor Atriz e Melhor Coadjuvante. O filme também foi indicado, mas deu azar: era o ano de “Perdidos na Noite (Midnight Cowboy).

A Noite dos Desesperados é uma obra-prima. Sidney Pollack não poupou talento nem talentos. Escolheu Jane Fonda, Michael Sarrazin, Gig Young, Susannah York, Red Button e Bruce Dern, entre dezenas de outros, para conduzir um show de horrores, um argumento denso, impiedoso, sem happy end. O curioso é que o título em inglês traduzido – “Matam-se Cavalos, Não Matam?” – revela o amargor do seu desfecho de se afundar na poltrona, quando, tais como cavalos inúteis, pessoas sem esperança são abatidas para lhes poupar do sofrimento.

Vale ver ou rever (CineClik, YouTube, DVD). Não que, por sadomasoquismo, precisemos antever os rumos da História em que agora somos personagens. Mas até que, por esperança, torcemos que surjam dessa experiência viral e brutal um alento breve da ciência, um humanismo nas ideias dos economistas, um novo comportamento humano e um neo-renascentismo, quando não precisaremos nos matar, como cavalos em sofrimento.

Sonhar acordado não custa nada, tempo ainda temos. Assim espero e tento fazer por acontecer, respeitando médicos, ajudando quem posso, lendo, escrevendo e assistindo a filmes, obras-primas que servem para pensar. Dentro de casa, como convém.

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