Um casal da alta sociedade paulistana faz uma festa de casamento em grande estilo. Ela, uma patricinha virgem, ele, um machão dado a se relacionar com orgias, garotas de programa fortunosas, experiências adequadas ao pensamento de que noiva é para casar, sexo é com as vadias.

São ricos.  De dinheiro, claro. Tanto que depois da festança, partem para uma noite de núpcias no Copacabana Palace, onde, enfim se dá o ritual do defloramento sem muitos prazeres. O noivo, já marido, dado à excentricidades, propõe uma lua de mel diferente. A noiva, já esposa, aceita sem questionamento. E os dois embarcam numa aventura: descer de balsa inflável as corredeiras de um daqueles rios pedregosos nas montanhas recônditas do interior dos Estados Unidos.

Ao chegarem lá, deparam-se como o que há mais rústico e tosco da América, que até então só tinham ideia que era composta por Nova York, Orlando, Chicago, Califórnia e cidades altamente confortáveis. Um acampamento onde o rio começa a ficar revolto os espera, com barracas precárias e sanitários mais ainda. São necessários alguns dias de preparação para a aventura que estaria por vir.

Exatamente nestes dias, nos cafundós de uma América inimaginável, os pombinhos vivem um inesperado perrengue, quando o marido se dá conta do fastio sexual que a mulher lhe provoca. Não só não quer nada com ela – o desejo sexual fica inexistente – como passa a tratá-la muito mal, não chegando a agredi-la fisicamente, mas desprezando a moça e ignorando sua “enfadonha” existência. A patricinha acusa o golpe e entra em depressão, estimulada pelo entorno inóspito e hostil.

Dias passam e a coisa só piora. Até que, numa manhã, o marido vê a mulher entrar no sanitário improvisado com um rolo de papel higiênico na mão. Ele fica de tocaia até ela sair e voltar para a barraca. O mauricinho vai ao sanitário e vê o que ela havia deixado lá, boiando numa cuba, imerso num liquido químico: um repugnante cilindro natural. Pronto. É o gatilho que dispara o happy end.

O marido corre para a barraca, onde encontra a mulher deitada e se joga em cima dela, possuído pelo mais portentoso e rijo dos desejos, recuperado da vontade de fazê-la conhecer os prazeres do sexo, gemendo sem pudores até espantar as águias que revoam o local. Transam a transa das transas repetidamente, e a partir daí a lua de mel segue seu curso normal.

É a história de um amor resgatado por um fetiche. Muito doido tudo isso. Trata-se do conto “Viagem de Núpcias”, de Rubem Fonseca, afiado em mexer com as entranhas do leitor e sublinhar a sordidez de personagens inventados, porém absurdamente verossímeis.  Coisa que ele é: um mestre em produzir e entregar à literatura uma obra de alta personalidade e de primeira grandeza.

Mas por que literatura num site de cinema? Soa óbvio: quando leio Rubem Fonseca é como se visse um filme. Seu texto direto e certeiro, sua criatividade de situações humanas, seus personagens que pulam das letras, tudo me leva a ver Rubem Fonseca muito mais que ler Rubem Fonseca. Tanto que este conto, do livro Histórias de Amor, me remeteu a 1973, quando assisti na telona a “Amargo Pesadelo”.

Reparem a semelhança. Quatro amigos sobem as montanhas na Geórgia para descer a corredeira de um rio, a partir de um ponto inóspito, bem daqueles que dizem que não há no mapa. Nada dá certo. Encontram uma comunidade de seres humanos primitivos, sem traços indígenas, mas fruto de uma civilização que os esqueceram lá em cima – isso também acontece na América. São pessoas toscas, marginalizadas, primárias, cruas, rudes, ignorantes, alguns até com bizarros problemas genéticos. Comparando ao conto, a corredeira, a natureza soturna, o ambiente hostil, o deserto de civilização, o desafio da aventura se encontram, mas no filme o perrengue é exterior. Vem da estranheza que os quatro amigos provocam naqueles seres aberrantes. E a partir daí, os amigos, que só queriam aventura, são cruelmente perseguidos por “invadir domínios perigosos”, servindo inclusive de caça, como caçam os primitivos montanheses os animais para o sustento. É um pesadelo, como diz o próprio título literal que o filme ganhou no Brasil. O diretor John Boorman conduz o espectador numa tensão que não beira o terror, mas a realidade impiedosa do choque entre duas civilizações. É de remexer na cadeira. Sem spoiler, adianto que não há happy end, tal como no conto do Rubem Fonseca.

O happy end fica por conta da experiência de cada espectador que, ao acender as luzes, percebe os suores e palpitações que foi agraciado por uma obra completa da arte mais completa, mesmo que incômoda e indigesta. Mas mostra pela rudeza da vida o quanto um filme bem construído – mesmo que não seja fofo – entra pelas nossas veias.

Como um brinde a mais, o também roteirista John Boorman nos reserva uma das cenas mais lindas do cinema, quando um dos amigos toca banjo com um dos meninos esquisitos do local. Primorosas música, densidade e interpretações de Burt Reynolds, Jon Voight, Ned Beatty, Ronny Cox, Billy Redden e todo aquele bando de seres humanos indescritíveis. A cena dos banjos é antológica e, para deleite dos apreciadores e sensíveis à arte, ela esta disponível na íntegra no YouTube.

Amargo Pesadelo entra para minha história de encantado pelo cinema, por me envolver numa obra contundente, cruel, inesquecível. Como um conto de Rubem Fonseca, que faz de sua leitura uma sessão de cinema de causar taquicardia.

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