Não me pergunte por quê, mas ando obcecado por musicais. Os que me conhecem sabem os motivos. Aos que não frequentam meus arredores reais e virtuais, prometo poupá-los dos meus imodestos lero-leros. Aliás, chega de lero-lero.

Musicais sempre me atraíram, tanto no teatro quanto no cinema, mas minha primeira experiência no gênero, ainda adolescente, foi um desastre. Na alta expectativa de assistir à saga do Rei Arthur comandando os Cavaleiros da Távola Redonda, entrei no cinema esperando duelos de cavalos e espadas, catapultas zunindo bolas de fogo, caldeirões derramando azeite fervendo, estratégias de batalhas e ação, muita ação, como convinha a um menino cheio de adrenalina. Tratava-se de “Camelot, de Joshua Logan (1967). Achei uma chatice, uma cantoria sem fim, vestida de armadura.

Mas eis que minha fair lady Audrey Hepburn me devolveu a paixão encubada e abalada por musicais e não parei mais. Na mesma leva, me vieram a eterna “Noviça Rebelde”, o divertido “Alô, Dolly!”, trazendo Louis Armstrong de brinde, e este Amor, Sublime Amor, uma releitura de Romeu e Julieta, que trocou as sacadas de Verona por escadas de incêndio dos guetos do lado oeste de Nova York. Um deslumbre.

Romeu e Julieta foi a obra mais adaptada, em diversos tempos e espaços, que a História da dramaturgia e da literatura tem notícia. Novelas, balés, peças infantis, filmes A, filmes B, filmes C, releituras cretinas, citações afiadas, inspirações de bom e mau gosto, sátiras brilhantes. Até Oscarito foi Romeu e Grande Otelo sua Julieta de tranças louras, debruçando-se de amor numa precária varandinha nos estúdios da Atlântida Cinematográfica. Saudades de Carlos Manga, que dirigiu clássicos da comédia e musicais brasileiros como se imaginasse em Hollywood, afirmação confessa pelo próprio.

Mas o que faz o maior poeta e dramaturgo da língua inglesa desassossegar no seu ossário em Stratford-upon-Avon é o fato de que até hoje, assim como terraplanistas existem, há dúvidas sobre sua existência. Para quem tem fome de polêmica, é um prato cheio. Nos últimos 100 anos, mais de 4,5 mil livros e artigos defendem que William Shakespeare é uma invenção, um pseudônimo de vários notáveis ghost writers da época, e sua obra não é de sua autoria, tese com a qual até Charles Chaplin, Sigmund Freud e Charles Dickens flertaram, na crença em que ele viveu muito pouco para produzir tanto. E com tanta qualidade de conteúdo, metáforas e conhecimento para a Humanidade, no ambiente de uma vila miserável de estímulos culturais e criativos. Seja o que for, nada diminui a potência do que leva sua assinatura e seu legado de referências para a prática e estudos de dramaturgia e literatura.

O fenômeno da dúvida e da desconstrução de criadores e criaturas é cíclico no correr das civilizações, ou mesmo de agrupamentos humanos. Já queimamos falsas bruxas e exaltamos a ciência. Já fizemos, desfizemos e refizemos conceitos. O ovo já foi vilão. Hoje é herói admirado por seus nutrientes. Em pleno século XXI, chegou a vez de alguém dizer que o rock é abortivo, Hitler é de esquerda, o cuidado com o meio ambiente é coisa de comunista, meninos vestem azul, meninas vestem rosa e a terra não tem nada de redonda. Impressionante. A complexidade humana e suas manifestações bipolares não têm limites. Ser ou não ser Shakespeare entrou nessa questão.

West Side Story, que no Brasil recebeu o ridículo título de Amor Sublime Amor, é uma adaptação do musical da Broadway de 1957, que realizou 732 performances antes de sair em turnê mundo afora. Entre sessões apinhadas e reverências da crítica, a montagem levou a trilha de Bernstein a ocupar por anos a fio os primeiros lugares nas listas dos álbuns mais vendidos e tocados.

Quando os diretores e produtores Robert Wise, Jerome Robbins, Arthur Laurents e Ernest Lehman resolveram repetir a dose no cinema, deu-se o primeiro mal estar: a maioria dos atores dos palcos foi reprovada nos testes de câmera. Era preciso rejuvenescer Maria, Tony e sua parentada briguenta. A princípio, sonharam com Elvis Presley e Audrey Hepburn para viver o par romântico, mas minha querida dama engravidou e não sei por que desistiram do Rei do Rock, suponho, para que seu estrondoso sucesso não eclipsasse sozinho a essência da obra. E assim surgiu Natalie Wood e Richard Beymer como a dupla Romeu e Julieta, ou Tony e Maria, a mais leve e charmosa da época, bem como os coadjuvantes da trama, não mais as famílias Capuleto e Montechio de Verona, mas as gangues Jets e Sharks, núcleos inimigos que os guetos porto-riquenhos de Nova York abrigavam. Talvez hoje fosse tachada de politicamente incorreta a interpretação sobre as mazelas sociais de uma imigração descontrolada. Quanto à transposição de Verona para Manhattan, Shakespeare teria aprovado. Afinal, apesar do seu tempo vivido, cercado de limitações e preconceitos, certamente era um sujeito (ou um pseudônimo) de natureza criativa e comprometido com inovações.

O filme tem uma cinematografia que beira o artesanal. Cenários, locações e coreografia foram criados e adaptados a dedo, atores preparados com um compromisso absurdo. Durante as filmagens, os elencos dos Sharks e dos Jets tiveram tratamentos diferentes de acomodações e refeições no set, exatamente para acirrar a raiva mútua que uma gangue nutria da outra. O real emprestou seu fel à ficção, e o resultado foi um dos top musicais do Cinema de todos os tempos. É o musical mais premiado da história do Cinema, tendo ganhado 10 Oscars, 3 Globos de Ouro e 2 Grammys em 1962, além do Directors Guild of America, o National Board of Review e o New York Film Critics Circle Awards em 1961.

Há quem odeie o gênero – conheço gente que saiu antes de o meio de “Os Miseráveisde 2012 -, há os que amam. Sou um desses, facinho de se deixar apaixonar. West Side Story me foi tão marcante que ouso uma confissão intima um tanto vexatória: certa vez, perambulando por bares no West Side de Manhattan, deslumbrado com o que teria sido um cenário realista do filme, juro que ouvi vozes gritando “Maria, Maria, Mariiiiaaaaaaa!”. Ou talvez cantaroladas produzidos por mim mesmo e alguns amigos exagerados, impossível precisar. Um delírio deliciosamente permitido. Sou careta. Deve ter sido o excesso de azeitona nos Dry Martinis.

Rever e rever e rever a saga shakespeariana de Maria e Tony, aditivada pelas canções de Bernstein, parece uma compulsão tanto de cinéfilos quanto de produtores de entretenimento. Moeller e Botelho, uma dupla expert e fissurada em montar belos espetáculos musicais no Brasil (“Hair”, “Noviça Rebelde”, “The Rocky Horror Picture Show”, “Um Violinista no Telhado”, “Pippin”, “O Despertar da Primavera”, “Cole Porter”, “Beatles num Céu com Diamantes”, entre tantos), já estreia a peça em São Paulo.

Mas como somos um fórum de sensíveis ao cinema, lembro que em dezembro de 2020 chega às telonas e às telinhas a versão de nada mais nada menos do que a de Steven Spielberg. O filme já está pronto, com Rachel Zegler (Maria) e Ansel Elgort (Tony). A história é a mesma, com recursos de agora, as músicas estão intocadas. A ver.

Bernstein, Robert Wise, Natalie Wood e Shakespeare, mito ou real, devem estar ansiosos. E eu, no plano cá em baixo, mais ainda.

 

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