O horror, o horror. O Apocalypse Now de Coppola termina com esse último suspiro do coronel Kurtz (Marlon Brando), um enlouquecido pelas atrocidades vividas e empreendidas na Guerra do Vietnã, que se isola nos cafundós do Camboja, cercado por uma tropa de montanheses, transfigurados em seguidores de sua seita selvagem. Comecei esta reflexão pelo final da história sem pudores de entregar spoiler – sim, Kurtz morre no final – porque o valor fascinante e cruel de Apocalypse Now não está no desfecho, mas no seu caminhar.

O ano é 1969. Solitário num quarto de hotel em Saigon, o Capitão Willard (Martin Sheen) aguarda ansioso por uma missão misteriosa. Enquanto o tempo passa nas pás de um ventilador de teto, Willard se atormenta com a vida, uma guerra ao seu redor e seu casamento fracassado, pensamentos alucinados e recorrentes, que resultam num porre homérico e autodestrutivo, cartão de visita do que está por vir nas próximas duas horas e tanto de filme. Em surto, é levado aos superiores General Corman (G.D Spradin) e o Coronel Lucas (Harrison Ford). Certos da capacidade militar do capitão em operações especiais, apresentam enfim a tal missão: subir o Rio Nung que serpenteia a selva até encontrar no Camboja, além das fronteiras norte-vietnamitas, um Coronel desertor, o próprio Kurtz, que agrupa num templo imenso, sombrio e exótico um séquito de comandados que o têm como um semideus. Uma ameaça ao rigor disciplinar do Exército Norte Americano e a sua imagem vencedora, até então engalanada de gloriosas vitórias na Europa e no Pacífico – ok, um arranhãozinho na Coreia, porém insignificante diante do peito estufado sobre a Segunda Guerra Mundial.

Parecia tarefa simples: reunir uma patrulha de elite, entrar numa lancha e sair passeando por um rio, contemplando as belezas naturais da região, desembarcar sorrateiro, dar um tiro no cara e explodir a coisa toda. Nada disso. O inferno estava apenas começando.

Willard se agrega a uma Patrulha de Barcos da Marinha, tripulada por “Chief” Phillips (Albert Hall), Lance B. Johnson (Sam Bottoms), Jay “Chef” Hicks (Frederic Forrest), e o Sr. “Clean” (Laurence Fishburne). Ainda nos preparatórios para a viagem, conhecem o Coronel Bill Kilgore (Robert Duvall), que comanda um esquadrão de helicópteros de ataque. Kilgore é apaixonado por surf, fica amigo de Lance, outro surfista, e se oferece para acompanhar a lancha até a parte costeira da floresta, onde ondas magníficas convidavam para altas emoções. Mas Kilgore não estava ali só para surfar: tinha outros jeitos de se divertir. Atentem para o escárnio: em meio a ataques aéreos de Napalm sobre aldeões, mulheres, velhos e crianças, alto falantes são instalados nos helicópteros e a Cavalgada das Valquírias de Wagner dá o toque épico ao massacre. Detalhe: Hitler amava a obra de Wagner e durante muito tempo as Valquírias foram associadas à campanha de propaganda do III Reich, no entanto, pelo menos para mim, o tempo e o discernimento cuidaram de desfazer tal associação incômoda para o compositor e injusta com a música, embora sua utilização cinematográfica como trilha sonora numa chacina de Napalm não deixa dúvidas que Coppola quis relembrar as atrocidades nazistas.

Durante a tempestade de fogo e horrores, Kilgore debocha: “Adoro cheiro de Napalm de manhã”. E no meio de corpos, fumaça, fogo e destruição, parte com seu amigo Lance para surfar nas ondas da praia que um dia fora paradisíaca.

O paradoxo da situação, guerra e lazer ao mesmo tempo, representa o que os americanos estariam fazendo num conflito que ninguém sabia de fato o porquê dos EUA estar metido nele. A base das tropas era formada por garotos de baixas renda e escolaridade, que amavam os Beatles e os Rolling Stones e nas primeiras convocações partiam alegres para o que acreditavam ser uma aventura.

Mas, segue o barco. A partir do evento surfista, a lancha zarpa protegida pelo ar, até o ponto em que a selva fica perigosa. E Willard e sua patrulha se veem sozinhos navegando por um rio de águas plácidas. Plácidas? O medo do desconhecido passa a tomar conta da tripulação e, tal como participantes confinados num reality show, estranham-se, botam suas emoções para fora, quase não se suportam, sucumbem às adversidades. Explodem de susto e pavor – eles e a plateia – com a aparição súbita de um tigre rosnando entre as folhagens. Desesperam-se quando Chief é transpassado por uma lança, algo impensável diante do aparato bélico e tecnológico embarcado. Uma lança? São as últimas palavras do soldado perplexo que até meses atrás cruzava as ruas do Harlem em passadas ritmadas por um gigante aparelho de som nos ombros. A missão segue o curso do rio, todos sob efeitos de drogas, a ponto de se matarem uns aos outros e provocarem trapalhadas que despertam a fúria oculta dos inimigos. O retrato mais nítido do que aqueles jovens estavam fazendo ali: morrendo bestamente, sem um pingo de heroísmo.

Coppola não poupa críticas à insanidade da Guerra do Vietnã, oferecendo uma dramaturgia realista, feia e eletrizante, uma sucessão de horrores e delírios, até que a tripulação restante percebe corpos mutilados boiando nas águas. Era o sinal que a missão estava chegando ao seu ponto crucial, quando tudo fica mais carregado de sangue, morte, fogo, selvageria, sacrifícios de gente e bichos, delírio. O templo de Kurtz é descoberto. São recebidos por um fotógrafo doidão (Dennis Hooper) que leva Willard aos labirintos daquele inferno. E mais não digo. Claro, já disse: o Coronel morre no final.

Apocalypse Now não é uma ficção pura. É uma interpretação fantasiosa do livro “Coração das Trevas” (Heart of Darkness) de Joseph Conrad, que conta uma história real que se passou no Congo, quando um militar desertor cria um universo paralelo onde uma comunidade de seguidores idiotizados surge como uma ameaça à normalidade, mesmo que a normalidade seja um conflito armado. Coppola encontrou a metáfora perfeita para expressar na tela o sentimento do americano mediano, filho da chamada maioria silenciosa, já se sentindo derrotado pelas flechas, lanças, zarabatanas e armadilhas de bambu.

A produção também teve seus horrores. Martin Sheen sofreu um infarto nos primeiros dias das filmagens. Marlon Brando apareceu no set nas Filipinas obeso e constantemente bêbado. Demorou um tempo até que ele voltasse à condição compatível para o personagem. Por conta disso, teve uma briga séria com o diretor, deu chilique e atuou, com muita má vontade, sem que a ranhetice fosse percebida na película, pois tratava-se de um gigante ator profissional. O monumental cenário do templo foi destruído por sucessivos furacões. Mais perrengues. Steve McQueen e Al Pacino recusaram o papel de Martin Sheen, pois anteviam que 17 meses confinados na selva não seriam bons para a saúde.

Apocalypse Now conquistou a aclamação crítica e seu efeito filosófico tem sido recorrente tema de debates em meios acadêmicos, históricos e cinematográficos. Ganhou Palma no Festival de Cannes e foi indicado ao Oscar de Melhor Filme e ao Globo de Ouro. Possui várias edições, sendo que a última, The Final Cut, é presença obrigatória na cabeceira dos amantes e estudiosos do Cinema e da História.

A primeira vez a que assisti Apocalypse Now se deu por volta de 1979 no saudoso Cinema Caruso em Copacabana. Fui na companhia de um grande amigo, que jura até hoje que o assistimos extasiados e de mãos dadas, a despeito da nossa heterossexualidade assumida. De fato, foi um choque de efeitos duradouros.

Ainda hoje, a voz terminal de Kurtz/Brando me ecoa diante de tantas atrocidades, insanidades, brutalidades, tanta falta de delicadeza na qual ditos seres humanos operam em plena segunda década do século XXI. Tudo fica mais horrível e desesperançoso quando notamos que o apocalipse de agora é incensado, aplaudido e avalizado por tantos outros ditos seres humanos.

Os helicópteros que aterrorizam o Complexo do Alemão no Rio não tocam Wagner. A estupidez vem de balas perdidas e direcionadas, carros de trabalhadores metralhados, facadas, chicoteamentos, medo permanente, palavras disparadas com a agressividade de um fuzil. Não quero mais entrar em detalhes dos fatos e exemplos, todos sabem. Meu estoque de tarjas pretas para o estômago está no fim, meu médico viajou e tenho que poupar pílulas e a saúde. Nosso apocalipse é now, tem suas sutilezas assustadoras e, por algum mecanismo inconsciente de curiosidade mórbida, revi a obra mais alucinante de Coppola dia desses, como se precisasse esgarçar sentimentos sobre os nossos tempos. Não me arrependi e recomendo aos fortes.
O filme continua atualíssimo, com suas alegorias de morte, destruição, desatino, desesperança, insensatez e deboche, tal como o mundo contemporâneo diariamente nos esfrega no nariz. O horror, o horror.

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