Durante a Segunda Guerra Mundial, numa base aérea do Mediterrâneo, o Capitão Yossarian (Alan Arkin), da Força Aérea dos Estados Unidos, conversa com o médico Dr. Danneka (Jack Gilford) sobre um piloto chamado Orr (Bob Balaban). Eis o diálogo.

– Orr é doido?
– Sem dúvida.
– Você pode dispensá-lo, doutor?
– Com certeza. Mas primeiro ele tem que pedir. Faz parte do regulamento.
– Então por que ele não pede?
– Porque é doido. Só um lunático continuaria a participar de missões de combate depois de escapar por pouco tantas vezes. É claro que posso dispensar Orr. Mas primeiro ele tem que me pedir.
– Isso é tudo que ele precisa para ser dispensado?
– É. Só precisa pedir.
– E assim ele é dispensado?
– Não, Capitão. Ele não é dispensado.
– Não? Mas segundo o regulamento ele pode pedir para ser dispensado.
– Se ele pede para ser dispensado por não suportar mais as missões quase suicidas, ele não é doido de verdade. Está no Artigo 22 do regulamento. Ele determina que quem quer ser afastado das missões de combate não é doido.
– Então, isso é um ardil.
– Ardil 22, como chamamos o Artigo 22, que especifica que um homem que preza sua segurança perante perigos reais e imediatos é dotado de uma mente racional. Portanto, não é doido.

Doido isso, não? Pois esta é a essência do filme de Mike Nichols: qualquer sujeito que não quer lutar numa guerra é são, não está maluco, e portanto apto a lutar. Inspirado no romance hormônio de Joseph Heller, lançado em 1970, o filme se passa no teatro da Segunda Guerra Mundial, numa ilha italiana, mas na verdade se faz de crítica e sátira à insanidade das guerras em geral, especialmente porque em plena passagem dos anos 60 para 70, soldados norte-americanos, diferente dos heróis triunfantes de 45, se atolavam na doideira chamada Vietnã. Nichols, usando o romantismo da Segunda Guerra, descasca a estupidez que foi a atrapalhação contra os imbatíveis vietcongues.

A narrativa do filme caminha por essa lógica louca, a lógica da guerra, da falta de lógica – olhe outro ardil aí – que se mistura com a lógica da loucura, com a lógica dos pesadelos, dos delírios, da alucinações de um grupo levado a uma lógica desprovida de lógica. Até a lógica furiosa do capitalismo é exposta em seu extremo: o tenente da intendência Milo (Jon Voight – em sua primeira aparição depois do perfeito caipira garanhão Joe Buck de “Midnight Cowboy”), é o ícone da corrupção e da volúpia de fazer dinheiro e negociatas, já que transforma a base num templo onde ele é grande vendilhão.

Na esteira de tipos doidos, segue um elenco de primeira. Personagens bem criados pela escrita de Heller e mais bem desenvolvidos pelo roteirista Buck Henry dão o toque à louca condução do filme. O coronel Cathcart (Martin Balsam) é um desvairado obsessivo, esgarçando o mais que pode o número de missões que cada combatente do ar tem de cumprir antes de voltar para casa.  O general Dreedle (Orson Welles) é o supra sumo da loucura, um assassino, feroz, sanguinário. O capitão Nately (Art Garfunkel), é o cúmulo da pasmaceira, a negação total do real ao seu redor, apaixonado pela prostituta italiana com uma crença absoluta na pureza da donzela entre aspas.

Há situações hilárias e tragicamente desopilantes. Detalhe para os diálogos bem urdidos e para a câmera de beleza incomum para um filme de guerra da época. Palmas de pé para a qualidade do elenco. Saldo positivo por ser um filme intencionalmente antimilitarista, inteligente, sofisticado e hermético em muitos momentos. Mike Nichols veio de dois sucessos importantes, “Quem Tem Medo de Virginia Wolf” e “A Primeira Noite de um Homem”, mas quando resolveu fazer um filme de uma obra sofisticada, sem os padrões hollywoodianos até então vigentes, a bilheteria e a crítica mandaram seus recados.

Algumas críticas, que prefiro contrariar os preceitos acadêmicos e não citar os autores (o Google sabe), foram implacáveis. “Longo, trabalhado, caro filme a partir do livro de Joseph Heller quase consegue capturar a insanidade surrealista da vida nas forças armadas durante a Segunda Guerra Mundial. A mão pesada estraga o potencial, com o bom elenco se esforçando ao máximo”; “Um fracasso imensamente ambicioso”; “O filme ficou tão pesado e pretensioso que acabou sepultando as ironias.” ; “Essa espécie de lógica à la Alice no País das Maravilhas está no cerne do livro de Heller, e de alguma forma funciona. Com Nichols, não funcionou.”

Não concordo, nem discordo, ou melhor, não me importo. Revi o filme em DVD com o mesmo êxtase da primeira vez. Sigo aplaudindo Ardil 22 e fico feliz em saber que a história com todas as suas sutilizas e ironias está indo para TV em forma de série, dirigida e protagonizada por George Clooney. Quero ver quem vai dizer que Ardil 22, ao menos pelo protagonista, não ficou mais bonito.

Se Ardil 22 foi desancado pela crítica e rotulado de fiasco de bilheteria, para mim tem um valor extraordinário. É um filme que carrega diálogos inteligentes – amo diálogos inteligentes – tem uma certa filosofia embutida, deixa margens a pensamentos críticos.

Diante da loucura que gira pelo mundo, considero uma obra contemporânea, uma metáfora dos novos tempos, quando a lógica contraria o bom senso e a própria lógica, quando o planeta roda ao contrário nos levando a tempos de horror à ciência, perseguição e ódio a quem pensa diferente, quando a arte e a cultura são subtraídas e a educação desmoralizada, quando gestos de armas com as mãos são saudações, e, o pior dos ardis: quando a democracia legitima antidemocratas.

 

Ou será que estou eu ficando doido?

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