Respeito total ao fato de aqui não ser um fórum de política. Mas impossível não confessar que ando sensível e triste ultimamente. Outro dia chorei ouvindo “A Porta”, do Vinicius de Moraes na Arca de Noé. Quase toda noite encharco os olhos com o profético e distópico The Handmaid´s Tale. Recentemente marejei com o samba enredo da Mangueira para 2019.

Minha sensibilidade anda a flor da pele com as hostilidades das redes, que seguem desfazendo amizades, abalando respeitos e comprometendo ceias do próximo Natal. Como faço análise, sei que reconhecer e esgarçar sentimentos não são bichos de sete cabeças. É terapêutico. Tanto que estendi meu vale de lágrimas de propósito, passando espanador nos meus DVDs de cabeceira para rever (reviver) Cinema Paradiso. Só de escrever seu nome dá nó na garganta e sua trilha estonteante me percorre os mínimos vasos capilares, oxigenando minha entrega incondicional ao melhor do cinema.

Abre parêntese: reza lenda que Giuseppe Tornatore, o diretor, dizia que fazia imagens para preencher trilhas de Ennio Moricone. Não sei se a citação aconteceu de fato. Ou teria sido de Sergio Leone? Não importa: é bem verossímil. Cinema Paradiso é cinema para se assistir, sentir e ouvir, até de olhos fechados. Fecha parêntese.

Sobre o filme em si, uma história humana e comovente daquelas de se guardar nos cantos da memória afetiva. Um cineasta bem sucedido, Salvatore Di Vita (Jacques Perrin), recebe um recado em Roma de que seu amigo Alfredo (Philippe Noiret) havia falecido. Ele parte para sua cidadezinha de infância para as despedidas dolorosas. Alfredo era um projecionista do único cinema local, que adotou Salvatore, ainda menino, como um amigo para o resto da vida, tanto que ele mesmo o apelidou de Totó (Salvatore Cascio). Alfredo era ranzinza, generoso e sábio. Tinha lá seus pensamentos: “Totó, eu escolho meus amigos por sua aparência e meus inimigos por sua inteligência”. Ou: “Cedo ou tarde, chega um momento em que falar ou ficar quieto é algo parecido, por isso fico em silêncio”.

Quando volta à vila – Sicília foi a locação das filmagens -, Salvatore faz uma viagem no tempo e revive sua infância rica de lembranças, desde as mais tristes, como a morte do pai na guerra, como as mais amorosas e sofridas, como suas primeiras paixões avassaladoras. Totó, um menino encantador, desde sua tenra idade, já era um amante do cinema. Ficava à espreita dos filmes que se projetavam na tela, enquanto previamente o padre da vila mandava Alfredo cortar as cenas impróprias.

A infância de Totó se passa em meados da década de 40, onde resquícios de fascismo, domínio da Igreja e censura eram traços vulgares do interior da Itália. Tornatore passeia com sua delicada câmera por toda a cultura reinante da época, com graça e muito sentimento. Disse numa entrevista na época do lançamento que Cinema Paradiso seria um obituário do cinema da tela grande. Pode ser que sim, pode ser que não. Fica a pulga atrás da orelha.

Voltando ao roteiro: Salvatore, o eterno Totó adulto, depois das despedidas do amigo, assiste ao progresso demolir aquilo que foi seu templo de sonho e amizade. O Cinema Paradiso vem literalmente abaixo, transformando em escombros cartazes, letreiros e pedaços de uma infância feliz. Neste momento, o espectador sensível também desaba. Impossível descrever, até mesmo agora, no momento desta escrita. Só de lembrar e ouvir Morricone – sim, ele está agora no meu fone de ouvido -, o nó na garganta se sobrepõe à capacidade de bater teclas.

Mas, vamos em frente.

No final da história, Salvatore recebe uma lata. Uma lata de fitas de filmes, que o próprio Alfredo deixou para ele, só para ele, o eterno amigo Totó. E neste momento, sugiro estocar os lenços. Ao projetar as fitas sozinho numa sala vazia, personagem e espectadores, metaforicamente como se abraçados de emoção, assistem extasiados exatamente às cenas que o padre mandava cortar. Beijos, abraços, amores ingênuos, uma ou outra perna de fora, tudo de indecente à luz da hipocrisia. Não me lembro ter assistido em filmes um gesto tão singelo e significativo de amor ao cinema e tudo que ele traz de engrandecimento, encanto e respeito à vida.

Cinema Paradiso é para se rever, reviver e se deixar levar. Pronto. Vou ali pegar um lencinho e já volto.

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