Antes de tudo, recomendo que vocês deem play na canção abaixo, pois poucas são os filmes tão indelevelmente ligadas a uma música, e a uma era, quanto esta.


John Hughes, falecido em 2009, é o que há de mais próximo do que se possa chamar de Rei dos Anos 80. Não porque os filmes que dirigiu eram os melhores (apesar de todos serem de bons para cima), não porque revolucionou o Cinema e tampouco porque demonstrava um virtuosismo técnico fora da curva. O que John Hughes fez como ninguém foi dar voz a uma parcela da sociedade que, apesar de gigantesca, não era até então devidamente representada no Cinema, a não ser de forma coadjuvante e, em geral, estereotipada. Hughes – primeiramente com Gatinhas e Gatões, seguindo com este Clube dos Cinco, continuando com o clássico “Mulher Nota Mil” e finalizando com sua obra máxima, o antológico “Curtindo a Vida Adoidado” (todos que certamente serão apresentados no Nostalgia em algum momento) – finalmente dava às agruras da adolescência, às frustrações da vida adulta (retratada muito en pasant com os poucos personagens adultos de seus filmes) e às relações entre pais e filhos a atenção merecida.

Em Clube dos Cinco, temos 97 minutos de exibição de um filme passado todo dentro de uma escola e em sua maior parte dentro da biblioteca. Nela, temos Bender (Judd Nelson), o maconheiro-marginal-bully, Claire (Molly Ringwald), a patyzinha-popular-chata-pra-caralho, Andy (Emilio Estevez), a estrela dos esportes, Brian (Anthony Michael Hall), o nerdão-mongol-virjão e Allison (Ally Sheedy), a emo-gótica-maluca, todos arquétipos explorados à exaustão de lá para cá.

Os cinco estão na biblioteca por causa daquela porra que nós, brasileiros, estamos vendo nos filmes americanos há décadas e ainda não entendemos exatamente a sua razão de ser: a detenção. Todos eles fizeram alguma merda e agora pagam seus pecados ao fazer nada em um sábado por 9 horas. Aqui no Brasil, como vários vídeos que circulam aí indiscriminadamente no whatsapp da galera comprovam, sabemos que meter cinco sujeitos cheios de hormônio expurgando pelas ventas sem ter nada para fazer por 9 horas dentro de uma sala não daria em coisa boa (ou lícita).

Enfim, uma vez lá dentro, os cinco, apesar de serem completamente diferentes entre si, encontram um laço em comum. São todos adolescentes, seus pais são tenebrosos cada um a sua maneira e todos eles enxergam no adulto o inimigo em comum que fará com que eles se unam. O longa se desenrola como uma peça, focado quase que exclusivamente nos excelentes diálogos também escritos por John Hughes (que é, aliás, um roteirista bem mais prolífico do que diretor) e que permitem ao elenco brilhar e extrapolar os estereótipos inicialmente apresentados.

Clube dos Cinco é basicamente o paradigma que todos os filmes de High School americana viriam a seguir no futuro. Os estereótipos, os diálogos ilusoriamente vazios sobre os problemas dos adolescentes – pequenos aos olhos dos adultos, mas gigantes e formadores de caráter quando vividos por nós mesmos quando adolescentes -, a escalação de atores com vinte e poucos anos para interpretar adolescentes de 16 (Judd Nelson tem até uma mecha grisalha no cabelo!), piadas sobre estupro que jamais seriam aceitas hoje em dia, um sujeito de 26 anos interpretando um adolescente de 16 enfiando a cara à força no meio das pernas de uma menina de 16 interpretando uma adolescente de 16, dentre tantas outras coisas. Ahhh, os anos 80…

Apesar de serem ilustres desconhecidos do púbico de hoje em dia – se você tem menos de 30 anos eu duvido que os nomes do elenco te façam lembrar de alguma coisa – Ringwald era a namoradinha da América quando o filme foi lançado, sendo que hoje ela é mais conhecida por ter sido a esposa de Peter Griffin em alguns episódios de Family Guy justamente zuando a sua fama estrondosa na década de 80. Estevez, que hoje é conhecido como o irmão mais velho, menos viciado, menos putanheiro e menos aidético de Charlie Sheen, seguiu uma carreira de sucesso fazendo filmes merda em que ensinava crianças idiotas a jogar Hóquei no gelo. Anthony Michael Hall, que hoje parece um ex-galã que sucumbiu às drogas, estrelou sucessos absolutos de bilheteria como esse o Clube dos Cinco, o já citado “Mulher Nota Mil” e a franquia “Férias Frustradas”. Todos eram nomes mencionados pelo locutor sempre que algum filme lamentável estrelado por eles era apresentado na Sessão da Tarde.

Se a maior parte dos filmes que comentamos aqui no Nostalgia são absolutamente abomináveis de serem assistidos hoje em dia (e basta tentar assistir “Comando Para Matar” ou “Aventureiros do Bairro Proibido“, ambos disponíveis na Netflix, para entender o que eu estou falando), Clube dos Cinco foge à essa regra. É um filme atemporal em seu gênero e no assunto que trata. É impressionante ver que o abismo que separa pais e filhos ainda existe na mesma intensidade, apesar de diferente, mesmo que os pais de hoje em dia tentem ser metidos a legalzões e ficam naquela onda de serem amigões dos filhos.

Foi com este filme, o único título realmente sério de toda a quadrilogia de Hughes sobre adolescentes, que ele finalmente solidificava sua posição como um cronista de toda uma geração, ao mesmo tempo que apresentava ao mundo uma nova leva de atores que viria a fracassar clamorosamente mais a frente (como parece ser a sina de todo ator de comédia adolescente dos anos 80), além de introduzir ao mundo a banda escocesa Simple Minds, um dos conjuntos mais quintessecialmente anos 80 já formados e responsáveis pela execução do hino oitentista “Don’t You (Forget About Me)” colado aqui no início do artigo, escrito para o filme e dado à banda.

Ainda que seja um pouquinho datado, Clube dos Cinco, que está disponível na Netflix, ainda funciona como uma crônica de uma geração e é um daqueles filmes obrigatórios para qualquer um que queira entender a História do Cinema. Mesmo que sua principal influência comercial tenha sido a proliferação de toneladas de filmes horrorosos e genéricos sobre a adolescência (já que ele custou 1 milhão e faturou só em bilheteria algo em torno de 50 milhões), é por causa desse filme também que o adolescente, tão sem importância e voz até então, se torna uma pessoa que vale a pena ser retratada, apesar de, convenhamos, serem realmente todos um porre.

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