Em 1947, na pequena cidade austríaca de Thal, nascia aquele que viria a se tornar o maior símbolo do cinema de ação de todos os tempos: Arnold Schwarzenegger. Hoje em dia as pessoas não fazem ideia do tamanho de Arnie na década de 80 e 90. Entre 82, quando estrelou Conan, O Bárbaro, e 92, ao protagonizar aquele que é até hoje visto como maior filme de ação de todos os tempos, O Exterminador do Futuro 2, Schwarzenegger epitomizava o cinema de ação e, apesar de ter feito filmes melhores do que o alvo do nosso Nostalgia de hoje, nenhum outro filme de sua filmografia (ou de qualquer outro ator) simboliza tão perfeitamente o quanto o cinema da década de 80 era deliciosamente merda.

Isto porque, para começo de conversa, ele passava semanalmente na Sessão da Tarde, o que é inacreditável considerando que só John Matrix (Arnold Schwarzenegger) mata 81 pessoas brutalmente. Em segundo lugar, Matrix tem munição aparentemente infinita, é incapaz de sentir dor, as balas se negam a acertar o seu corpo e, como que a cereja do bolo, ele não precisa mirar para acertar praticamente a totalidade dos tiros que dispara, basta que aperte o gatilho e as pessoas morrem como moscas em sua frente. Todas essas são características próprias dos filmes da época.

Arnie mostrando seus atributos dramáticos

Este era um tempo em que os estúdios acreditavam ser mais fácil ensinar um malandro gigantesco como Arnie a fazer algo remotamente parecido com atuar do que encher de bomba um ator já formado e minimamente bom, o que é a norma de hoje em dia. Funcionou assim com Thor, Wolverine, Leônidas e outros. Ademais, há uma preocupação mínima com verossimilhança das cenas, o que tem feito Hollywood ter contratado cada vez mais consultores militares e afins para conferir maior veracidade às cenas de ação.

Nesta época, a qualidade dramática do que entregavam os Schwarzeneggers da vida era tanta, que, salvo raras exceções, eles sequer tinham qualquer coisa parecida com um romance nos filmes. Neste, por exemplo, até aparece uma mulézinha para dar uma ajudada, Cindy (Rae Dawn Chong), mas sequer há uma tensãozinha sexual que seja entre os dois. E era essa a regra para os filmes dessa época. O protagonista invencível está muito ocupado chutando bundas para se importar com coisas menos viris como amar.

E é nessa mesma toada que iam os roteiros. Eles apresentavam apenas um arremedo de história, que, no caso do filme de hoje, é bem simples. A filha de John Matrix é sequestrada. John Matrix inventa o conceito de exército de um homem só e vai em seu resgate, aproveitando para filmar a mais icônica cena de “agora a porra ficou séria” do cinema. É basicamente isso.

O roteiro deixa bem claro que o que importa mesmo são as cenas em que Arnie “descapota” um carro com as mãos, arranca uma cabine telefônica (com uma pessoa dentro) do chão ou segura uma pessoa pelo pé na beira de um penhasco usando apenas uma mão e sem fazer qualquer esforço aparente, muito embora o filme seja tão merda que o fio segurando a perna dessa pessoa está lá para qualquer um ver e isso tenha partido meu coração de criança de 25 anos quando descobri que Arnie não tinha super-força.

Resolução ruim, mas não tanto quanto o esmero técnico dessa cena.

E o início do filme vem justamente para comprovar essa super-força, com uma cena em que Matrix carrega, sem fazer força, uma tora de uns 100 kg num ombro e uma motosserra em outro, tudo isso enquanto uma montagem musical (outro recurso tão saudoso dos anos 80) nos é apresentada, demonstrando como Matrix era um excelente pai e como closes homoeróticos dos músculos de Schwarzenegger podem ser um elemento válido de cinematografia e roteiro.

Um exemplo de paternidade.

E, por falar em homoerotismo, temos aqui um filme que está a frente do seu tempo. O vilão principal, Bennett (Vernon Wells), é um sujeito fazendo cosplay de Freedie Mercury em versão mais afetada e (muito) mais baitola. Em uma interpretação de dar inveja a qualquer gay de novela, Vernon Wells passa o filme todo orgulhosamente exibindo um bigode glorioso, braços esquálidos e uma regatinha com uma espécie de colete de cota de malha medieval, isso tudo enquanto parece gozar loucamente nas calças a cada vez que profere o nome de Matrix e como ele vai acabar com a sua raça.

“Você saia daqui ou então eu corto essa rachada!”

Faz até algum sentido. Como Hera, que quer matar Héracles por esse ser o símbolo da infidelidade de seu marido Zeus, Bennett é todo implicantezinho com a filha de Matrix porque essa é o símbolo de sua heterossexualidade e, portanto, a prova de que este amor proibido entre antagonista e protagonista jamais poderá ser vivido.

É incrível que o diretor de elenco tenha olhado para Schwarzenegger, a quintessência do brucutu indestrutível, e tenha decidido que Vernon Wells – com sua barriguinha de peixe de vala bebum, seus bracinhos de quem nunca levantou um peso na vida e suvaco cabeludo – poderia parecer alguém que lhe faria frente. Em especial com aquele bigode, aqueles gritinhos de drag e aquela roupitcha. É também inacreditável que Vernon Wells não tenha feito carreira posteriormente em uma banda cover do Village People.

Schwarzenegger estava no auge de sua carreira de ator e por auge eu me refiro as tiradas engraçaralhas pelas quais ficou conhecido. Foi aqui que ele afirmou que come boinas verdes no café da manhã (em uma fala que é repetida até hoje no cinema americano), que diz “Eu menti!” para o sujeito que horas antes ele havia prometido matar por último e proferiu seu primeiro “I’ll be back”.

Vale falar também da participação da menina Alyssa Milano, que viria a se tornar uma atriz de sucesso e peça firme quando adulta, e de Bill Paxton, como figurante genérico nº 2. Contudo, nenhuma dessas coisas é mais emblemática e importante do que a foto abaixo.

Fui!

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